Chapter Text
O corredor principal do Palácio Imperial permanecia mergulhado naquele silêncio peculiar das manhãs de inverno. Um silêncio que para muitos poderia significar paz, mas para a nascida Morland o silêncio significava o prenúncio do caos.
As janelas arqueadas deixavam entrar uma luz fria, filtrada pela neve que caía incessantemente sobre Alfidia. O mármore branco refletia o brilho azulado do céu nublado, enquanto criados caminhavam apressados, carregando bandejas de prata, brasas para aquecer os aposentos e montanhas de documentos destinados aos ministros do imperador.
A mulher ruiva avançava corredor adentro e à medida que sua silhueta corpulenta avançava pela luz pálida que atravessava as altas janelas do palácio, os empregados interrompiam discretamente os seus afazeres para abrir passagem. Alguns curvavam-se respeitosamente a cabeça em reverência à esposa do terceiro príncipe de Alfidia, enquanto outros apenas se afastavam em silêncio, evitando cruzar o olhar com a duquesa que anos atrás fora a responsável por fazer um inferno na vida da imperatriz consorte, Cinderela. O suave farfalhar da saia branca e o compasso firme de seus passos eram os únicos sons que rompiam a quietude daquele extenso corredor revestido por mármore claro, onde tapeçarias antigas narravam as glórias da dinastia Renoir e grandes candelabros de bronze lançavam reflexos dourados sobre as paredes.
Cassandra, contudo, mal percebia as reverências que lhe eram dirigidas. Seus pensamentos encontravam-se muito distantes daquele palácio, presos ao encontro que pretendia ter naquela manhã no Teatro Imperium. Havia anos que rumores circulavam pelos salões da alta sociedade sobre a mulher que ocupava um lugar constante na vida de Edward, e, embora já não alimentasse ilusões acerca da fidelidade do marido, existia uma diferença cruel entre suspeitar de uma traição e descobrir que toda a corte conhecia o nome da amante.
Na noite anterior, Cassandra acreditara que já havia suportado a maior humilhação que um casamento poderia impor a vida de uma mulher é expôs como a sua soberania foi aniquilada, deixando a sua fragilidade em frangalhos e a sua auto estima como uma mulher foi destruída. Entretanto, ao despertar naquela manhã, compreendeu que a vergonha não residia apenas na existência da amante, mas na naturalidade com que toda a aristocracia tratava aquele relacionamento extra conjugal e como eles endossaram essa situação, fazendo dela um objeto de chacota.
Enquanto ela havia permanecido durante anos recolhida aos seus aposentos, recuperando-se de seus filhos natimortos e de seus filhos bastardos, esforçando-se para cumprir o papel de uma esposa digna, embora Edward jamais se preocupou em ocultar sua vida dupla. Pelo contrário, permitia que seu nome fosse constantemente associado ao de outra mulher, como se a honra de sua esposa fosse um bem descartável, incapaz de sofrer qualquer dano.
O que mais a perturbava não era a infidelidade em si, pois ela sabia que desde o seu casamento aquilo fora apenas para o imperador de Alfidia ter vantagem política. Bem, ao menos sempre foi isso que ela pensou, entretanto, na noite passada Sebastian Callisto falou que em uma outra linha temporal eles foram um casal trágico que não puderam ficar juntos por motivos maiores.
No entanto, apesar dele ter falado tudo aquilo, por que ele permitiu que ela se casasse com o seu irmão mais novo. Seria apenas para realizar o seu desejo egoísta em uma gaiola de ouro apenas para observá-la?
Desde muito jovem aprendera que o casamento raramente era construído sobre amor. Entre a nobreza, uniões eram firmadas para consolidar alianças políticas, ampliar fortunas e fortalecer linhagens. O amor, quando existia, surgia como um privilégio concedido a poucos; quando não existia, restava apenas o dever.
O que feria Cassandra era perceber que toda a corte conhecia a existência daquela mulher enquanto ela própria permanecera durante anos envolta por uma ignorância cuidadosamente preservada. Alguns certamente haviam rido de sua situação. Outros talvez sentissem pena. Havia ainda aqueles que, escondidos atrás de falsos gestos de cortesia, aguardavam apenas uma oportunidade para comentar, em voz baixa, sobre a esposa incapaz de manter o marido ao seu lado.
Sentia-se ridicularizada, não por Edward ter lhe traído com a bailarina Elowen Delacroix.
Mas pelo homem a quem jurara fidelidade diante dos homens e da Deidade Suprema.
Enquanto descia a longa escadaria que conduzia ao átrio principal do palácio, Cassandra procurava convencer a si mesma de que aquele encontro não aconteceria por ciúmes. O ciúme era um sentimento que morrera havia muito tempo, consumido pelas sucessivas decepções que Edward lhe oferecera ao longo dos anos.
Ela desejava apenas olhar nos olhos da mulher cujo nome atravessava os salões aristocráticos de Alfidia com tanta facilidade quanto o seu próprio. Queria compreender quem era aquela bailarina capaz de permanecer durante tantos anos na vida do terceiro príncipe. Foi então que, ao dobrar um dos corredores que conduziam à saída principal do palácio, uma voz masculina rompeu o silêncio daquela manhã.
— Cassandra, por favor, me espere! Preciso falar com você!
Ao virar o rosto para trás, Cassandra deparou-se com o seu primo, Gawaine Morland. Enquanto seus antepassados e primos eram conhecidos por atravessarem os corredores com passadas largas, rápidas e quase bruscas, como homens moldados para a guerra e para a vida no campo, Gawaine caminhava com uma descrição quase aristocrática, cada movimento marcado por uma graça natural que parecia destoar do próprio sobrenome que carregava. Em uma das mãos, segurava uma carta cuidadosamente lacrada; na outra, trazia uma pasta de couro escuro, firmemente presa contra o peito, como se os documentos ali guardados possuíssem um peso muito maior do que o papel poderia suportar. Havia em sua expressão uma preocupação evidente, uma inquietação que contrastava com a postura sempre controlada do conselheiro imperial de relações exteriores de Rosalian.
Ao olhar para trás, Cassandra deparou-se com o seu primo, Gawaine Morland. Enquanto seus antepassados e primos eram conhecidos por atravessarem os corredores com passadas largas, rápidas e quase bruscas, como homens moldados para encarar guerras e para a vida no campo aos arredores do famigerado Palácio de Redhill, Gawaine caminhava com uma descrição quase aristocrática, cada movimento marcado por uma elegância serena que parecia destoar do próprio sobrenome que carregava. Sua pele morena contrastava com as vestes escuras cuidadosamente alinhadas, enquanto os longos cabelos negros, presos para trás, emolduravam um rosto de traços firmes, suavizados apenas pela expressão tranquila que raramente o abandonava.
— Peço perdão por estar lhe incomodando tão cedo, Duquesa de Aurora Boreal.
Cassandra sustentou os seus olhos castanhos escuros sobre o seu primo durante alguns instantes. Fazia menos de doze horas desde que haviam voltado a compartilhar o mesmo recinto depois de tantos anos. Na noite anterior, durante o banquete oferecido por Sebastian Callisto, haviam trocado apenas algumas palavras, insuficientes para preencher o vazio de quase duas décadas de distância.
Agora ele estava ali na sua frente, vinte anos após a sua partida de Rosalian. O tempo era implacável para tantas coisas, parecerá incapaz de apagar completamente as lembranças daquela infância distante. Cassandra recordava-se apenas de fragmentos esparsos do primo com quem compartilhará os primeiros anos de vida: algumas tardes nos jardins do Palácio de Redhill, o som de suas risadas infantis ecoando pelos corredores, conversas interrompidas pela mudança repentina que a levaria para Alfidia quando tinha apenas sete anos de idade. Depois disso, suas vidas seguiram caminhos completamente distintos.
A última lembrança que guardava de Gawaine remontava à infância, quando ambos ainda corriam pelos jardins do Palácio de Redhill, em Rosalian. Tinham praticamente a mesma idade e, quando crianças, costumavam acompanhar os demais primos pelas propriedades dos Morland. Contudo, essas recordações eram fragmentadas, desbotadas pelo tempo. Cassandra deixara Rosalian aos sete anos de idade e, desde então, jamais voltara a conviver com ele e com os seus outros primos.
Os anos transformaram duas crianças que um dia dividiram as mesmas brincadeiras em adultos que mal se conheciam.
Ainda assim, havia algo estranhamente familiar em sua presença. Talvez fosse o timbre calmo da voz ou a serenidade que parecia acompanhá-lo em qualquer circunstância.
— Não precisa se desculpar, Conselheiro Morland. Aconteceu alguma coisa?
Gawaine olhou disfarçadamente para o arredor dos dois e pode notar através de sua visão monocromática, dois criados atravessando o corredor carregando uma pilha de documentos. Mais adiante, um oficial da guarda imperial conversava discretamente com uma dama da corte. Havia olhos e ouvidos por toda parte. Ao notar isso, a postura do Morland se tornará rígida e seu semblante tornou-se mais sério, contrastando o semblante tranquilo que ele virá presente no seu rosto durante o encontro com alguns membros de sua família por parte paterna
— Receio que sim.
A resposta foi curta, mas suficiente para despertar a atenção da ruiva e um arquear de sua sobrancelha.
— Trata-se de um assunto extremamente delicado e acredito que esta não seja a melhor ocasião para conversarmos no meio do corredor. Teria como conversarmos em outro recinto?
Cassandra acompanhou discretamente o movimento de seu olhar e compreendeu a preocupação do primo. Na corte, paredes possuíam ouvidos e muito provavelmente era algum assunto muito delicado.
— Infelizmente, também não disponho de muito tempo neste momento — respondeu ela, voltando a dirigir o olhar para a saída do palácio. — Tenho um compromisso do qual não posso me ausentar.
Gawaine franziu levemente o cenho.
— Permita-me insistir, Vossa Graça. O assunto realmente não pode esperar.
Pela primeira vez desde que iniciaram a conversa, Cassandra desviou a atenção para os objetos que ele carregava. A pasta de couro parecia excessivamente volumosa para conter apenas documentos diplomáticos. Os dedos de Gawaine apertavam-na com tanta firmeza que seus nós haviam embranquecido.
Aquilo não era algo comum, vê-lo daquele modo só a fazia lembrar do menino reservado que conhecerá na infância, antes de deixar Rosalian. Mesmo quando criança, Gawaine raramente demonstrava nervosismo. Era o tipo de pessoa que parecia pensar antes de cada palavra e medir cada gesto, como se tivesse aprendido desde cedo que a prudência era uma virtude indispensável à sobrevivência da nobreza. Vinte anos haviam se passado desde a última vez que estiveram juntos, mas bastara revê-lo na noite anterior para perceber que essa característica permanecia inalterada.
Durante o banquete da noite anterior, ela observara de longe o conselheiro imperial. Era um homem de postura inabalável, cuja tranquilidade parecia resistir até mesmo às discussões políticas mais tensas. Vê-lo naquele estado bastou para fazê-la reconsiderar.
— É realmente tão urgente assim?
— Sim.
A resposta veio sem hesitação e Cassandra permaneceu em silêncio por alguns instantes, então soltou um estalo com a língua no céu de sua boca e soltou um discreto suspiro.
— Muito bem — o olhar da ruiva se voltou para a janela onde ela havia pedido para um cocheiro preparar uma carruagem e seu olhar seguiu para a os grandes portões do palácio, onde sua carruagem já aguardava.
— Entendo que o assunto é urgente, mas preciso ir ao Teatro Imperium. — ouve um breve lampejo de surpresa nos olhos castanhos de Gawaine, mas ele não fez qualquer pergunta. — Se realmente não puder esperar... gostaria de saber se você gostaria de me acompanhar. Conversaremos na carruagem. Pelo menos lá teremos um pouco mais de privacidade do que aqui.
A mulher alta se aproximou o suficiente para que somente aquele homem pudesse ouvir.
— Temos muito ratos da imperatriz consorte espalhados pelo Palácio de Cristal. Não pretendo facilitar o trabalho deles oferecendo uma conversa que possa alimentar novos rumores sobre a minha pessoa, não estou disposta em oferecer mais munições para que ela continue tentando destruir o pouco que ainda resta da minha reputação.
Disfarçadamente, os olhos castanhos do nascido Morland percorreram discretamente o corredor mais uma vez. Bastando apenas um único olhar de relance para confirmar a fala de Cassandra.
Criados iam e vinham carregando documentos, damas caminhavam em pequenos grupos e guardas permaneciam imóveis junto às colunas de mármore. Em um palácio como aquele, nenhuma parede era suficientemente espessa para impedir que uma informação encontrasse ouvidos interessados.
O conselheiro permaneceu imóvel por um breve instante antes de inclinar respeitosamente a cabeça.
— Agradeço a gentileza, Vossa Graça, será uma grande honra acompanhá-la.
O moreno curvou discretamente a cabeça em sinal de respeito e ofereceu-lhe o braço, aguardando que a duquesa o aceitasse antes de retomarem o caminho. A ruiva fez um sinal de consentimento com a cabeça e circulou o seu braço em torno do braço de seu primo, sem dizer mais nada, os dois seguiram lado a lado em direção à saída do palácio.
Apesar da nascida Morland querer andar com passos mais apressados, Gawaine sabia da mutilação que ela havia realizado na sua juventude e isso havia dificultado a sua mobilidade. Ainda que Cassandra não deixasse transparecer em seu semblante a dor que ela sentia ao pisar no chão ou demonstrar qualquer sinal de fraqueza diante de terceiros, era notável que quando a mulher andava por longas distâncias exigia um esforço silencioso e doloroso ao extremo. Por essa razão, o conselheiro ajustou discretamente o próprio ritmo ao dela, sem tornar aquele gesto evidente ou permitir que parecesse um ato de piedade.
Não comentou sobre o assunto com a sua prima, pois sabia que não era necessário. Tampouco lhe ofereceu ajuda além do braço que ela já segurava. Ele conhecia o suficiente sobre o orgulho dos Morland para saber que qualquer demonstração excessiva de preocupação poderia ser interpretada como uma ofensa a sua dignidade e ele não estava disposto em iniciar um debate logo pela manhã.
Era conhecida a fama das mulheres Morland. Uma fama que era sussurrada nas sombras e repetidas incessantemente, como se fosse uma oração ao Deus da luz, Ashlan, para as deixar longe da sociedade ou como se fosse um aviso para tomar cuidado com as mulheres daquela família.
Diziam que havia algo nelas que assombrava mais temente as mulheres seguidoras de Ashlan e assombravam os homens, quase os levando à loucura. Como se fosse algo antigo que ecoava nas florestas ou pelos salões dos impérios das Rosas Carmesim.
Algo que muitos consideraram como errado. Talvez fosse isso por conta dessa família de duques e duquesas terem uma linhagem comprometida aos remanescentes da Queda de Ojesed, vindos da linha materna, mais maldição da rebeldia e maldade. Descendentes de um sangue que nunca deveria ter existido sob os olhos de Ashlan, o sangue da bruxa carmesim, Alessandra Janssen e Fergus Morland, que era fruto do pecado, pois era filho bastardo do segundo rei de Rosalian, o rei Galenor Rosalian e Emílle Morland.
Nunca houve prova. Nunca houve confissão. Apenas olhares longos demais, silêncios que diziam mais do que palavras, e uma linhagem que jamais se curvou como deveria.
Em cada geração, havia uma que carregava esse peso com mais força a sensação de estar sendo observada, julgada, quase condenada por algo que ninguém podia tocar, mas todos justificados ver. Chamavam de desvio, de heresia, de maldição… porque era mais fácil do que admitir que algumas mulheres simplesmente não nasceram para obedecer.
E ainda assim, elas permanecem. Não inocentes, não culpadas, apenas intocáveis nas mãos dos homens. Porque no fim, não importa o nome que eles dão… quando o mundo inteiro decide que você é uma bruxa, a verdade deixa de ser necessária.
E talvez seja exatamente assim que as histórias começaram. Mulheres com temperamentos fortes que de uma forma ou de outra marcaram profundamente a sociedade e causaram um caos na sociedade.
Cassandra percebeu a mudança quase imperceptível no ritmo da caminhada. O passo de Gawaine permanecia firme, porém suficientemente moderado para que ela não precisasse forçar os próprios pés mutilados a acompanhá-lo. Não fez qualquer observação a respeito. Limitou-se a continuar caminhando em silêncio, estranhamente grata por aquele cuidado discreto, tão diferente dos olhares de pena ou do constrangimento que costumava despertar na corte de Alfidia.
Enquanto os primos caminhavam, nenhum dos dois imaginava que aquela conversa, iniciada por mera conveniência durante um curto percurso até o Teatro Imperium, mudaria profundamente o rumo da vida de Cassandra Morland. Afinal, dentro daquela simples pasta de couro repousava uma verdade enterrada havia décadas, capaz de destruir a reputação de um homem morto e devolver à filha de Thomas Morland aquilo que sempre lhe pertencera por direito.
Quando eles chegaram em frente à carruagem, dois cocheiros já aguardavam imóveis ao lado dos cavalos, enquanto um lacaio se apressava em abrir a porta do veículo assim que reconheceu a esposa do terceiro príncipe de Alfidia. Os animais batiam as ferraduras contra o piso de pedra coberto por uma fina camada de neve, soltando pequenas nuvens de vapor que logo desapareciam no ar gélido daquela manhã de inverno.
— Vossa Graça. — saudou o criado, curvando-se educadamente, enquanto a primogênita de Thomas Morland acenou com a cabeça.
Gawaine soltou delicadamente o braço de Cassandra e deu um discreto passo para o lado, oferecendo a mão para que ela pudesse entrar na carruagem.
— Depois da senhora.
A ruiva respondeu apenas com um breve movimento de cabeça e segurou a mão do homem com firmeza. Com etiqueta, segurou a saia branca de seu vestido apenas o suficiente para não manchar a dobra da barra nos degraus da carruagem e entrou no veículo, embora os pés mutilados lhe arrancassem uma dor silenciosa a cada movimento.
Somente depois de certificar-se de que Cassandra estava devidamente acomodada, Gawaine subiu na carruagem. Fechou cuidadosamente a porta atrás de si e tomou assento à sua frente, pousando a pasta de couro sobre o colo enquanto a carta permanecia firme entre os dedos, enquanto ele tamborilava na capa da pasta preta.
Com a sua audição aguçada por conta da maldição que ele carregava desde os sete anos, o bruxo ouviu o cocheiro estalar as rédeas dos cavalos e a carruagem começou a mover-se lentamente pelas ruas cobertas de neve de Alfidia. Um silêncio se instalou entre os primos, sem que eles fossem capazes de quebrar o silêncio com uma única palavra.
O único som que preenchia o interior da carruagem era o ranger suave das rodas sobre a neve compactada e o trotar ritmado dos cavalos que conduziam o veículo pelas largas avenidas da capital de Alfidia. A luz pálida daquela manhã de inverno atravessava as pequenas janelas de vidro, projetando reflexos prateados sobre o revestimento de veludo vinho que cobria os assentos da carruagem.
Na frente da ruiva, Gawaine permanecia imóvel. O olhar da mulher se voltou para a pasta de couro preto que estava sobre as pernas do homem e ela notou que de tempos em tempos, os dedos tamborilam a capa, um gesto que Cassandra perceber que era algo incompatível com a natureza dele.
— Você continua fazendo isso Gawaine?
Gawaine ergueu os olhos de surpresa e olhou para a mulher que estava em sua frente.
— Fazendo o quê?
Ela apontou discretamente para a pasta.
— Quando você está preocupado, fica batendo os dedos na pasta. Me lembro que você sempre ficava assim quando éramos crianças.
Por um breve instante, o conselheiro pareceu genuinamente surpreso e olhou para a pasta, se lembrando que ela não era a primeira pessoa a perceber esse velho hábito, que ele tentava esconder a todo custo pois o fazia se recordar de memórias que ele preferia apagar de sua mente. Em uma tentativa de mudar de assunto, o moreno permitiu que um sorriso discreto surgisse em seus lábios.
— Não imaginei que você ainda se lembrasse disso.
— Na verdade... eu não lembrava. — a ruiva desviou o olhar para a janela novamente. — Só reconheci o gesto quando o vi outra vez.
O silêncio voltou a instalar-se entre ambos. Ao olhar de ambos, aquilo era muito estranho. Quase não existiam lembranças suficientes para chamá-los de próximos, mas também não eram completos desconhecidos.
Compartilhavam o mesmo sangue, a mesma infância interrompida e uma família marcada por histórias que poucos ousavam mencionar em voz alta. Depois de alguns segundos, Cassandra respirou profundamente.
— Muito bem, primo. Agora que finalmente estamos longe de ouvidos curiosos... diga-me.
Seu único olho castanho encontrou o dele.
— O que aconteceu para fazê-lo atravessar metade do Palácio de Cristal atrás de mim?
Gawaine não respondeu de imediato. Sua visão percorreu discretamente o interior da carruagem.
Mesmo sabendo que estavam sozinhos, seu instinto o fazia agir com cautela. A vida como conselheiro de relações exteriores havia lhe ensinado que informações perigosas raramente eram protegidas apenas por paredes.
Ele então levou a mão até a pequena cortina da janela e certificou-se de que estava completamente fechada. Somente depois voltou a encarar Cassandra.
— Antes de responder... preciso lhe fazer uma pergunta.
A ruiva arqueou levemente a sobrancelha.
— Uma pergunta?
— Sim.
Gawaine Morland colocou a pasta sobre o banco estofado em que ele estava sentado e inclinou-se para frente
— Você confia no Imperador Sebastian Callisto Renoir? — sua voz havia escapado de seus lábios em um sussurro e a pergunta pairou entre os dois como uma lâmina suspensa.
Cassandra permaneceu em silêncio e se lembrou que na noite anterior, Sebastian havia lhe revelado verdades capazes de abalar tudo aquilo em que acreditava durante anos. Coisas que ele mantivera escondido por anos a fio e que havia ocasionado efeitos que ela jamais pensará que seria possíveis, pois ela não cresceu tendo acesso a estudos sobre magia, o que a fazia se perguntar uma coisa, como ele havia tido contato com conhecimentos mágicos?
Segundo a conduta moral pregada por essa religião, uma pessoa que era seguidor de Ashlan não poderia realizar práticas hereticas, sendo assim, tudo o que ele havia feito era contra tudo o que os seguidores da luz pregavam.
O imperador havia falado sobre uma linha temporal completamente diferente que ela nunca havia imaginado, com um destino e consequências completamente diferentes. Sobre um amor que jamais existirá naquela realidade e ainda assim, ele também foi o homem que arquitetou um casamento com Edward para mantê-la perto dele e aproveitar do peso político que ela exercia naquele jogo de poder. Mas ainda assim, fora ele quem a condenara àquela gaiola dourada.
Durante todos esses anos em que ele se mantivera casado com Cinderela e em suas aparições públicas ele demonstrou ser seguidor do Ashlanismo e seguidor fiel. Era esse o efeito que Sebastian Callisto Renoir despertava nas pessoas, ele era um homem em pele de cordeiro. Um homem que parecia incapaz de contradizer os princípios da religião que professava, mas que, nas sombras, demonstrava conhecer segredos que nenhum fiel deveria sequer mencionar.
Depois de alguns segundos, respondeu honestamente:
— Não sei.
Foi a primeira vez, desde que deixou Rosalian, que Cassandra admitiu não possuir resposta para uma pergunta tão simples.
Gawaine pareceu esperar exatamente essa resposta. Inclinou discretamente a cabeça e pousou a mão sobre a pasta de couro.
— Então talvez ainda haja esperança.
Os olhos de Cassandra estreitaram-se ao ouvir a fala de seu primo.
— Esperança... de quê?
O conselheiro respirou fundo e seus dedos deslizaram lentamente o fecho de couro da pasta, o couro antigo rangeu baixinho quando a tampa foi aberta.
No interior havia dezenas de documentos cuidadosamente organizados, alguns tão antigos que o papel adquirira uma tonalidade amarelada. Outros traziam selos de antigas casas nobres de Rosalian, enquanto alguns possuíam lacres imperiais que jamais deveriam ter deixado determinados arquivos.
Gawaine retirou apenas um deles. O documento aparentava não ser o mais antigo, muito menos o mais volumoso, mas parecia ser aquele que carregava o maior peso.
Ele segurou o documento entre os dedos durante alguns segundos antes de entregá-lo à prima.
— Antes que a senhora vá ao Teatro Imperium... existe algo sobre o seu passado que precisa conhecer, e esses papéis mudam completamente a sua vida e a de Edith. No entanto, antes de lhe entregar esses documentos, há uma dúvida me corrói por dentro há bastante tempo.
Cassandra ergueu discretamente a sobrancelha.
— Qual?
Gawaine sustentou o olhar da prima por alguns instantes antes de prosseguir.
— O que a fez sair tão cedo nesta manhã para ir ao Teatro Imperium? Quando a encontrei no corredor, a senhora parecia determinada a chegar até lá antes de qualquer outro compromisso. Confesso que fiquei curioso. Aconteceu alguma coisa?
Cassandra permaneceu alguns instantes em silêncio. Seu olhar desviou-se para a pequena janela da carruagem, onde a paisagem nevada deslizava lentamente diante de seus olhos. Parecia ponderar se deveria ou não responder àquela pergunta.
— É justo. — murmurou por fim, voltando a encará-lo. — Afinal, eu respondi a uma pergunta muito mais delicada do que essa.
Um discreto sorriso surgiu nos lábios de Gawaine, mas desapareceu quase no mesmo instante.
— Não pretendo invadir a sua privacidade, Cassandra. Apenas imaginei que algo muito grave tivesse acontecido para fazê-la sair do Palácio de Cristal logo ao amanhecer.
A ruiva soltou um breve suspiro.
— Na verdade... aconteceu. — seus dedos deslizaram distraidamente sobre o tecido branco da própria saia antes que ela prosseguisse — Creio que você percebeu
— Durante anos ouvi rumores sobre uma bailarina chamada Elowen Delacroix. Sempre diziam que ela ocupava um lugar constante na vida de Edward. Nunca dei muita importância aos comentários. A corte vive de boatos, e eu me recusei, durante muito tempo, a alimentar fofocas.
Ela fez uma breve pausa.
— Ontem à noite descobri que não eram apenas rumores.
Gawaine permaneceu em silêncio.
Não demonstrou surpresa. Tampouco interrompeu a prima.
Apenas continuou ouvindo.
— Descobri que praticamente toda a aristocracia de Alfidia conhecia a existência daquela mulher. Nobres, ministros, damas da corte... todos sabiam. Todos, menos eu.
A carruagem balançou levemente ao passar sobre um trecho irregular da rua.
Cassandra desviou novamente o olhar para a janela.
— Passei anos acreditando que, apesar das dificuldades do meu casamento, ao menos minha dignidade permanecia preservada diante da sociedade. Ontem compreendi que fui a última pessoa a descobrir aquilo que todos comentavam havia tanto tempo.
Sua voz permanecia controlada.
Não havia lágrimas.
Apenas um cansaço profundo.
— Por isso estou indo ao Teatro Imperium.
Gawaine franziu discretamente o cenho.
— Pretende encontrar essa mulher?
Cassandra confirmou com um lento movimento de cabeça.
— Sim.
O conselheiro permaneceu alguns segundos em silêncio antes de fazer a pergunta seguinte.
— Posso lhe perguntar por quê?
— Porque cansei de viver cercada por sombras e rumores. Não pretendo confrontá-la, muito menos humilhá-la. Quero apenas olhar em seus olhos e compreender quem é a mulher que permaneceu ao lado de Edward durante todos esses anos.
Gawaine permaneceu alguns instantes em silêncio, enquanto os seus olhos castanhos escuros permaneceram fixos sobre a prima, como se buscassem compreender aquilo que suas palavras não haviam dito, palavras que estivessem entre as linhas.
— Você acredita que essa conversa trará as respostas que procura?
Cassandra demorou alguns segundos antes de responder.
— Não sei. — ela soltou um breve suspiro. — Não existe resposta alguma capaz de justificar nove anos de humilhação pública, mas preciso vê-la. — seus dedos longos entrelaçaram-se sobre o colo.
O conselheiro inclinou discretamente a cabeça.
— Para compreender Edward?
A ruiva balançou a cabeça em negativa.
— Mas é claro que não. — seu único olho castanho voltou-se lentamente para o primo. — Edward eu já compreendi há muito tempo, ele não tem dignidade, muito menos soberania com os seus próprios atos. Ele nem ao menos honra as próprias calças, aquele maldito bastardinho — um riso de escárnio perspassou pelos seus lábios ao se lembrar daquela figura amaldiçoada que havia
Houve um breve silêncio, antes que ela pudesse dar continuidade em sua fala.
— Quero compreendê-la.
A resposta fez Gawaine arquear discretamente uma das sobrancelhas.
— Você não a culpa?
— Quem é casado a nove anos comigo e por diversas vezes poderia me passar alguma doença venérea durante as nossas relações e ter prejudicado algum dos meus filhos foi ele. Tirar o peso da culpa de Edward nessa situação e jogar sobre as costas dessa bailarina seria fácil demais.
Aquilo não era uma novidade para os seus ouvidos a muito tempo, com o seu alto cargo, o homem moreno conhecia bem demais as histórias que jamais chegariam aos salões da corte: esposas contaminadas pelos próprios maridos, crianças que nasciam enfermas e famílias inteiras que escondiam a verdade para preservar um sobrenome.
Cassandra desviou novamente o olhar para a janela. A neve continuava caindo lentamente sobre os telhados de casas mais afastadas da capital de Alfidia.
— Ela não me fez promessas diante do altar. — sua voz permaneceu calma. — Não foi ela quem jurou permanecer ao meu lado até que a morte nos separasse.
Gawaine permaneceu imóvel. Não havia surpresa em seu semblante, apenas atenção.
— Então pretende responsabilizar apenas Edward?
Cassandra permaneceu alguns instantes refletindo antes de responder.
— Não sei se existe alguém completamente inocente nessa história.
Seus dedos deslizaram distraidamente sobre a barra da manga do vestido.
— Talvez ela soubesse que ele era casado.
Talvez não, talvez essa mulher também tenha sido enganada e tenha acreditado nas promessas vazias dele, promessas essas que jamais seriam cumpridas. Além do mais, quantos anos tem essa mulher?
Será que ele a conheceu quando ela tinha treze anos? Será que ela era apenas uma menina quando Edward começou a se aproximar dela? Tão jovem que ainda acreditava que promessas feitas por um príncipe poderiam se transformar em realidade? Talvez tenha esperado durante anos que ele cumprisse a palavra que lhe dera, sem jamais compreender que algumas promessas nascem apenas para manter alguém presa à esperança.
Ou talvez fosse exatamente isso que ele procurava. Alguém jovem o suficiente para acreditar em tudo o que ele dizia. Alguém cuja pouca idade tornasse mais fácil confundir manipulação com afeto, dependência com amor e promessas vazias com um futuro possível.
Voltou a encarar Gawaine.
— É justamente isso que desejo descobrir.
O conselheiro respirou profundamente.
— Compreendo. — a palavra saiu dos lábios do Morland quase como um sussurro.
Depois de alguns instantes, seus olhos recaíram novamente sobre a pasta de couro.
— Curioso...
Cassandra franziu levemente o cenho.
— O quê?
— Você está indo ao encontro de uma mulher para descobrir se a história que lhe contaram durante anos era verdadeira. — ele fez uma breve pausa. — Enquanto eu estou aqui... para lhe provar que grande parte da história que lhe contaram sobre a sua própria vida nunca passou de uma mentira.
O silêncio instalou-se imediatamente entre ambos. Aquelas palavras fizeram Cassandra desviar completamente a atenção de Edward.
Seus olhos fixaram-se na pasta repousada sobre o colo do primo.
— O que quer dizer com isso?
Gawaine sustentou o olhar dela durante alguns segundos.
— Quero dizer que, antes de descobrir quem realmente foi Elowen Delacroix... talvez você precise descobrir quem realmente é Cassandra Morland.
Um silêncio sepulcral se fez presente entre os nascidos Morland e a filha mais velha de Thomas o olhou de cima a baixo, como se estivesse analisando quais palavras sairiam de seus lábios. Enquanto observava a paisagem, a mulher viu um corvo negro em um galho observando o andar da carruagem.
Quando os olhos da mulher e do corvo de pelagem escura se entrecruzaram, uma estranha visão invadiu a sua mente: Sebastian Callisto estava ajoelhado em frente de uma estátua de uma mulher que ela nunca havia visto em sua vida. Eles aparentavam estar em um templo religioso dos seguidores das Deusas-Bruxas.
A estrutura colossal foi feita de mármore branco tão polido que refletia a luz das chamas das velas espalhadas pelo seu entorno. Aquela figura apesar de ser extremamente bela, refletia a magnitude e uma serenidade assustadora, ela mantinha a sua cabeça erguida para frente e sobre sua cabeça imponente coroa kokóshnik repousava sobre os seus cabelos escuros, inteiramente adornada por pedras negras, ônix, espinélios e longos fios de pérolas que desciam delicadamente pelas laterais do rosto até a altura do peito.
O seu corpo estava envolto por um majestoso vestido cerimonial de corte imperial típico do império de Octrun, confeccionado em um tecido negro que parecia ser as asas de um corvo. A gola alta abraçava-lhe o pescoço, completamente bordada com fios dourados e pequenas pedras escuras. Sobre os seus ombros repousava um pesado manto de mangas longas que caía até o chão, ricamente ornamentado por arabescos dourados, pérolas negras e rubis de tonalidade profunda, formando desenhos antigos que lembravam galhos retorcidos, espinhos e rosas vermelhas há muito esquecidas pelo tempo. A cintura era marcada por um delicado cinto bordado, enquanto a longa saia descia em pregas elegantes até desaparecer entre os degraus do altar.
O véu negro preso à coroa escorria silenciosamente por trás da estátua como uma sombra eterna, tornando impossível distinguir onde terminava a pedra e onde começava a escuridão daquele templo.
Uma coisa que Cassandra pode notar é que enquanto o imperador de Alfidia estava ajoelhado aos pés daquela estranha estátua que fazia um arrepio percorrer sua espinha dorsal e a voz do homem se fez presente naquele recinto:
“Desejo poder voltar ao passado e criar uma nova linha temporal, quebrar está terrível maldição que a Invidia nos impôs a muitos anos atrás e enfim poder dar a oportunidade das mulheres mais importantes para mim: Minha filha, minha irmã e a mulher que eu amo. Porém tenho três pedidos a fazer, sei que não estou em posição de pedir algo para a senhora, minha mãe, maso eu não consiga alcançar os meus objetivos. Eu peço que a senhora de forças a minha Marie Antoinette, Marie Josephine e Cassandra a derrotarem a Penumbra”
Apesar de nunca ter visto aquela imagem daquela misteriosa mulher em sua vida. Ainda assim despertava uma estranha sensação absurda de familiaridade.
Antes que ela pudesse ter qualquer reação, a Morland ouviu a voz de uma mulher ressoar pela sua mente. Ela ergueu os olhos assustados para a mulher e notou que apesar da imagem não abrir os lábios um instante sequer, ela ainda tinha a estranha sensação que a voz estava vindo daquela estatua de mármore.
Se assim é a sua vontade, espete o seu dedo nesta rosa e permita que nosso contrato seja realizado, meu garoto. Apesar de você não ter frequentado Maleficis Turrim ou ter convivido com o nosso povo, você precisa saber de uma coisa, para nós a rosa vermelha não é apenas um símbolo de beleza frágil, ela representa o sacrifício de amar, mesmo que o seu amor não seja retribuído, a promessa e uma memória frequente para as Deusas-Bruxas sobre o amor que Iustitia sentia pelo fundador de Rosalian. A rosa representa um ponto de virada para a história que você está prestes a reescrever a história, mas para isso, ela terá que morrer, pois a morte leva embora tudo o que tem que acabar, para enfim ter um novo ciclo.
As últimas palavras daquela misteriosa mulher ecoaram pelo templo durante alguns instantes, até que o silêncio voltou a envolver aquele lugar sagrado. A imagem começou a desfazer-se lentamente diante dos olhos de Cassandra, como se toda aquela construção estivesse sendo consumida por uma névoa espessa. As velas desapareceram uma após a outra, o mármore branco dissolveu-se na escuridão e a figura majestosa da estátua tornou-se cada vez mais distante, até que tudo foi engolido por um vazio absoluto.
A filha mais velha de Thomas Morland piscou algumas vezes e, num único instante, voltou a enxergar a paisagem, mas o corvo já não estava mais presente na árvore, a mulher ruiva olhou para o interior da carruagem e ouviu o ranger ritmado das rodas contra a estrada coberta de neve substituiu o silêncio sepulcral do templo, enquanto a luz fria daquela manhã de inverno atravessava novamente as pequenas janelas de vidro. Ainda assim, seu corpo permaneceu imóvel durante alguns segundos, incapaz de compreender se realmente havia regressado à realidade ou se aquela visão ainda não chegara ao fim.
Uma súbita onda de frio percorreu-lhe a espinha dorsal. O sangue pareceu abandonar-lhe completamente o rosto, tornando sua pele pálida como a neve que cobria as ruas de Alfidia. A respiração tornou-se pesada e irregular, enquanto uma vertigem inesperada obrigou-a a inclinar o corpo para a frente, apoiando uma das mãos sobre a cabeça a procura de algum alento que pudesse acalmar a sua mente.
Gawaine percebeu imediatamente a mudança em seu semblante. Sem qualquer hesitação, inclinou-se em sua direção e segurou-lhe delicadamente o antebraço, utilizando a outra mão para amparar-lhe as costas antes que ela perdesse o equilíbrio.
— Cassandra, o que está acontecendo com você?
Sua voz permaneceu baixa, mas havia nela uma preocupação que dificilmente transparecia em outras circunstâncias.
A filha mais velha de Thomas permaneceu alguns segundos tentando recuperar a própria respiração. Seu coração ainda batia com violência contra o peito e a estranha sensação provocada por aquela visão parecia recusar-se a desaparecer completamente.
Quando enfim ergueu os olhos para o primo, sua voz saiu baixa, quase como um sussurro.
— Gawaine...
O conselheiro aguardou em silêncio.
— O que é... Lex Aequivalens?
O efeito daquela pergunta foi imediato. Os dedos do Morland permaneceram imóveis sobre o antebraço da prima, enquanto toda a expressão de seu rosto se transformava. A preocupação deu lugar a uma perplexidade silenciosa e, durante alguns instantes, ele limitou-se a fitá-la como se procurasse compreender se realmente havia ouvido aquelas palavras.
— O que você disse?
Cassandra sustentou-lhe o olhar.
— Lex Aequivalens.
O silêncio voltou a instalar-se dentro da carruagem. Gawaine retirou lentamente a mão de seu antebraço e endireitou a postura. Seus olhos permaneceram fixos sobre Cassandra durante vários segundos, analisando cada detalhe de sua expressão, como se tentasse descobrir se aquela pergunta escondia alguma armadilha ou se fora feita por mera curiosidade.
— Onde ouviu esse nome?
Cassandra desviou o olhar por um breve instante para a janela da carruagem. A neve continuava caindo silenciosamente sobre a estrada.
— Primeiro responda à minha pergunta.
O conselheiro permaneceu em silêncio.
— Cassandra...
— O que é Lex Aequivalens, Gawaine Morland?
A voz da Morland permanecia calma, mas havia nela uma firmeza incomum. Gawaine respirou profundamente antes de responder.
— Lex aequivalens commutationis, também conhecida como, lei de troca equivalente é um dos princípios mais antigos da magia e é essa ideia está estritamente ligada a uma alcunha antiga que era falada entre os escravos de guerra que eram do antigo território de Ojesed. “Não se pode criar algo do nada, e tudo que for recebido deve ser trocado por algo de igual valor”. — o Morland disse seriamente — Essa prática foi proibida durante a época que o imperador Avel, filho mais novo do rei Warren e da sua segunda esposa, Anastasia Octrun, foi considerado o reinado mais curto do mundo contemporâneo, pois havia reinado como rei por apenas 90 dias e logo após morreu de forma "natural". Ele e o conselho mágico promulgaram uma das leis mais severas já promulgadas pelo Conselho de Magia.
Aquelas palavras fizeram Cassandra prender discretamente a respiração.
— Ela proíbe que qualquer bruxo ou qualquer outra criatura pertencente à sociedade mágica celebre pactos diretos com as Deusas-Bruxas. A violação desta lei constitui um dos crimes mais graves previstos pelo Conselho.
O conselheiro voltou a encará-la.
— Agora responda à minha pergunta... onde você ouviu esse nome?
— Tenho apenas minhas razões.
Gawaine permaneceu imóvel.
— Cassandra...
— Não estou tentando desrespeitá-lo. — sua voz permaneceu serena. — Apenas não posso responder essa pergunta neste momento.
O conselheiro estreitou discretamente os olhos.
— Não pode... ou não quer?
A ruiva sustentou-lhe o olhar.
— Ambas as coisas.
Houve um breve silêncio antes que ela prosseguisse.
— Se eu lhe dissesse como ouvi esse nome, provavelmente o senhor acreditaria que perdi completamente a razão. E, neste instante, nem eu mesma tenho certeza do que aconteceu.
Ela respirou profundamente.
— Por isso prefiro não falar sobre isso. Pelo menos... ainda não.
Seus olhos permaneceram fixos nos dele.
— Mas posso lhe assegurar uma coisa: não ouvi esse nome em nenhum livro, tampouco em alguma conversa. Foi a primeira vez que essas palavras chegaram aos meus ouvidos.
Ela fez uma pequena pausa.
— Agora, se deseja que eu confie no que está prestes a me mostrar... preciso que faça o mesmo por mim e aceite que existem perguntas que ainda não posso responder.
— Está bem, se essa é a sua vontade.
Cassandra concordou com a cabeça e manteve o olho voltado para a paisagem que lentamente deslizava do lado de fora. As ruas estavam cobertas por uma fina camada de neve e comerciantes começavam a abrir as portas de seus estabelecimentos enquanto criados atravessavam as calçadas carregando lenha, cestos de alimentos e tecidos destinados às residências da alta nobreza.
A carruagem avançava lentamente pelas largas avenidas que circundavam o Palácio de Cristal, onde o urbanismo parecia ter sido concebido para glorificar o poder da dinastia Renoir. Fileiras perfeitamente alinhadas de árvores, agora despidas pelas rigorosas nevascas do inverno, acompanhavam os bulevares pavimentados com grandes blocos de pedra clara. Estátuas de antigos imperadores, generais e heróis nacionais erguiam-se sobre pedestais de mármore, observando silenciosamente o incessante movimento da capital.
À medida que se afastavam do distrito imperial, a cidade começava a revelar outra face que os nobres não conheciam, uma face onde a maior parte da população vivia.
Os palacetes pertencentes à alta nobreza cediam lugar a edifícios altos, estreitos e construídos tão próximos uns dos outros que, em alguns trechos, quase ocultavam a luz do céu. Varandas de ferro trabalhado projetavam-se sobre as ruas, enquanto pequenas placas de madeira, pintadas com símbolos facilmente reconhecíveis, identificavam padarias, livrarias, alfaiatarias, relojoarias, boticas e oficinas de artesãos.
Apesar do frio intenso, a cidade já despertava, afinal de contas, enquanto a nobreza dormia, a base da pirâmide se movimentava para continuar fazer a engrenagem continuar a rodar. Era engraçado a ironia, enquanto os de cima
Carroças carregadas de barris, sacas de cereais e grandes caixotes cruzavam lentamente as ruas, obrigando cocheiros a reduzir o ritmo. Vendedores ambulantes organizavam suas mercadorias sob pequenas tendas cobertas de neve, oferecendo frutas conservadas, pães recém-saídos.
O aroma de pão quente misturava-se ao cheiro da lenha queimando nas chaminés, deixando um rastro de fuligem preta sobre os céus
Algumas crianças corriam entre as bancas, indiferentes ao frio rigoroso, enquanto mulheres embrulhadas em grossos xales negociavam o preço dos alimentos para o restante da semana.
Cassandra observava tudo através da janela. Havia anos que não atravessava aquela região da capital sem estar cercada por escoltas ou preocupada apenas com compromissos protocolares.
Naquela manhã, porém, seu olhar parecia diferente. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, compreendesse que existiam dores muito maiores do que aquelas escondidas entre as paredes do Palácio de Cristal.
Talvez porque as palavras de Sebastian e as de Gawaine houvessem aberto rachaduras profundas demais para serem ignoradas. Ou talvez porque já não soubesse qual era a verdade, enfim, nenhum dos dois voltou a falar durante vários minutos.
Gawaine permanecia sentado diante dela, mantendo a pasta de couro repousada sobre o colo. Seu olhar, entretanto, desviava-se discretamente para Cassandra de tempos em tempos.
Os pensamentos da ruiva pareciam distantes demais para uma pessoa que parecia estar refletindo sobre uma conversa. No entanto, ele notou que havia algo diferente em sua expressão, uma inquietação silenciosa. Como se alguma peça invisível tivesse acabado de ser deslocada dentro de sua mente.
A carruagem virou uma esquina larga. Pouco a pouco, os edifícios residenciais deram lugar a construções mais refinadas. Grandes cafés, confeitarias elegantes, casas de ópera menores e galerias de arte anunciavam a chegada ao distrito cultural da capital.
Ali, a arquitetura abandonava a rigidez dos bairros mais pobres e a arquitetura mais refinada começava a tomar conta daquele lugar. Fachadas ornamentadas por esculturas de mármore, vitrais coloridos e colunas adornadas com folhas de ouro refletiam a prosperidade daquela parte da cidade.
Artistas, músicos, atores, mecenas e burgueses cruzavam as calçadas envoltos em pesados casacos de inverno. Carruagens luxuosas estacionavam diante dos edifícios, enquanto criados carregavam instrumentos musicais, figurinos e enormes cenários destinados às apresentações da manhã.
Então, ao final da ampla avenida, surgiu a construção mais imponente de todo o distrito. O famigerado Teatro Imperium, que mesmo coberto pela neve, o edifício conservava uma imponência quase intimidante.
As gigantescas colunas de mármore branco sustentavam um frontão esculpido com figuras das antigas ninfas. Sobre a escadaria principal, bandeiras imperiais do império de Alfidia tremulavam lentamente ao vento, enquanto grandes portas de madeira escura permaneciam abertas para receber funcionários, músicos e bailarinos que iniciavam os ensaios daquela manhã antes da primeira apresentação que somente começaria as 8:30 da manhã.
O cocheiro reduziu a velocidade e poucos instantes depois, a carruagem parou diante da entrada principal.
O silêncio dentro do veículo tornou-se quase palpável. Gawaine lançou um último olhar para a prima, como se ainda restasse alguma esperança de que ele desistisse de adentrar o teatro.
— Ainda deseja entrar?
Cassandra permaneceu imóvel durante alguns segundos. Depois voltou os olhos para a fachada monumental do teatro.
— Mais do que antes.
Ela segurou a maçaneta da porta.
— Agora... preciso descobrir se Elowen Delacroix é apenas mais uma mentira que me contaram... ou a única pessoa que jamais mentiu para mim.
O lacaio abriu imediatamente a porta da carruagem e Gawaine desceu primeiro. Não porque acreditasse que Cassandra fosse perder o controle.
Mas porque, pela primeira vez desde que deixara Rosalian, compreendeu que ela estava prestes a encontrar alguém capaz de mudar completamente o rumo daquela manhã.
E, considerando tudo o que havia acontecido desde que saíram do Palácio de Cristal, já não tinha certeza de quem sairia mais transformado daquele encontro: Cassandra... ou a própria bailarina.
O ar cortante do inverno invadiu o interior do veículo, trazendo consigo o burburinho característico do distrito cultural. Músicos atravessavam apressados a escadaria carregando estojos de violino, violoncelos e partituras. Costureiras transportavam vestidos protegidos por capas de linho, enquanto funcionários do teatro descarregavam cenários recém-chegados dos ateliês imperiais.
Gawaine estendeu novamente a mão.
— Com cuidado, prima.
Cassandra apoiou delicadamente os dedos sobre os dele e desceu da carruagem com a imponência de uma imperatriz, algo que era tão característico que fazia com que muitos acreditassem que a mulher era metida. Assim que seus sapatos tocaram a pedra coberta por uma fina camada de neve, ela notou que o diretor e um funcionário do Teatro Imperium ao perceberem que ela havia chegado, começaram a descer as escadarias, vestidos com casacas azul-escuras bordadas em fios dourados, aproximaram-se imediatamente.
— Vossa Graça, Duquesa de Aurora Boreal.
Os dois inclinaram profundamente a cabeça e a ruiva limitou-se a responder com um discreto aceno.
Sem dizer uma única palavra, levou a mão até a pequena bolsa presa à cintura do vestido. Seus dedos encontraram o objeto metálico que retirara do Palácio de Cristal antes de partir.
Era uma pesada moeda de bronze dourado, do tamanho aproximado da palma de sua mão.
Em uma de suas faces encontrava-se gravado o brasão da Casa Renoir envolvido por ramos de louro.
Na outra, lia-se cuidadosamente:
Théâtre Imperium
Abonnée
Loge Impériale nº VII
A borda da peça era ornamentada por pequenas flores-de-lis e pelo número correspondente ao camarote da família imperial.
O diretor reconheceu imediatamente o medalhão e um discreto sorriso de deferência surgiu em seu semblante. Endireitou ainda mais a postura antes de tornar a inclinar respeitosamente a cabeça.
— É uma honra recebê-la novamente, Vossa Graça. Fazia algum tempo desde sua última visita ao Teatro Imperium.
Cassandra limitou-se a um leve movimento de cabeça.
— De fato, mas achei encantadora a apresentação que ocorreu no banquete na noite anterior. — sua voz permaneceu serena, quase impessoal.
O diretor estendeu ambas as mãos e recebeu cuidadosamente a moeda de subscrito, observando-a apenas o tempo suficiente para confirmar o número gravado na borda. Embora soubesse perfeitamente a quem ela pertencia, o protocolo da casa exigia aquela breve conferência.
— Loge Impériale número sete... tudo está preparado para recebê-la, Vossa Graça.
Devolveu-lhe o medalhão com ambas as mãos, como se estivesse manuseando uma joia pertencente à própria Coroa.
— Sua presença é sempre uma honra para esta casa.
Cassandra guardou novamente a moeda na pequena bolsa presa à cintura do vestido.
— Agradeço.
O diretor então voltou sua atenção para o homem que permanecia discretamente ao lado da duquesa.
— E o cavalheiro...?
Antes mesmo que a pergunta fosse concluída, Cassandra respondeu com absoluta tranquilidade:
— O Conselheiro Imperial de Relações Exteriores de Rosalian, Gawaine Morland, é meu convidado.
Ao ouvir o sobrenome do homem e o cargo que desempenhava, bastou um breve instante para que o diretor interrompesse qualquer questionamento que ainda pudesse fazer. A expressão de cordialidade deu lugar a uma reverência ainda mais respeitosa. Embora Gawaine não pertencesse à nobreza alfidiana, seu nome carregava um peso político impossível de ignorar. Como Conselheiro Imperial de Relações Exteriores de Rosalian, representava oficialmente uma das maiores potências do continente, e tratá-lo com qualquer desatenção poderia facilmente ser interpretado como uma afronta diplomática.
O homem inclinou novamente a cabeça.
— Naturalmente, Vossa Graça. O senhor Morland será recebido com todas as honras devidas a um convidado do Vosso camarote.
O diretor voltou a sua postura ereta e fez um gesto simples com as mãos e o funcionário aproximou-se imediatamente.
— Providencie o acesso ao camarote imperial e informe aos criados que Sua Graça deseja total privacidade durante sua permanência.
— Sim, senhor diretor.
O empregado afastou-se apressadamente para cumprir a ordem. Enquanto isso, o diretor voltou-se novamente para Cassandra.
— A apresentação desta manhã começará dentro de aproximadamente quarenta minutos. A companhia encontra-se nos ensaios finais.
Houve uma breve pausa.
— Deseja seguir diretamente ao camarote... ou existe alguma outra solicitação que possamos atender?
Cassandra sustentou o olhar do diretor por alguns segundos antes de responder.
— Sim. — sua voz permaneceu calma, mas havia nela uma firmeza que fez até mesmo Gawaine voltar discretamente a atenção para a prima. — Desejo conversar com a primeira bailarina.
Pela primeira vez desde que descera as escadarias, o diretor pareceu verdadeiramente surpreso e uma expressão de espanto surgiu em seu rosto ao notar que a duquesa desejava encontrar-se com a amante do terceiro príncipe de Alfidia.
De repente, os seus lábios ficaram secos e ele precisou umedecê-los discretamente antes de responder. Bastou ouvir aquele pedido para que sua mente retornasse imediatamente aos comentários que haviam circulado entre os convidados do banquete realizado no Palácio de Cristal na noite anterior. Alguns conhecidos haviam lhe contado, ainda nas primeiras horas daquela manhã, que Vossa Graça deixara o salão logo após avistar a primeira bailarina do Teatro Imperium entre os convidados da família imperial. Desde então, os rumores espalhavam-se com rapidez pelos círculos da aristocracia, cada pessoa acrescentando uma nova versão aos acontecimentos.
Por um breve instante, o diretor sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Seria aquela visita o desfecho inevitável da história que toda a corte comentava em voz baixa? Teria a duquesa vindo exigir satisfações da mulher que, havia anos, era apontada como amante do terceiro príncipe de Alfidia? Ou estaria prestes a acontecer, diante dos olhos de todos, um escândalo capaz de comprometer não apenas a reputação do Teatro Imperium, mas também a da própria família imperial?
Apesar da inquietação que lhe apertava o peito, o diretor esforçou-se para não deixar que o desconforto transparecesse além do necessário. Afinal, estava diante de uma das mulheres mais influentes de Alfidia, e qualquer hesitação poderia ser interpretada como uma grave falta de respeito.
— Vossa graça gostaria de fato conversar com a senhorita Elowen Delacroix?
Ao perceber que o homem estava nervoso, um sorriso zombeteiro surgiu nos lábios carmesim da Duquesa de Aurora Boreal.
— Curioso... — murmurou ela, inclinando levemente a cabeça para que somente ele pudesse ouvir — Desde quando um diretor do Teatro Imperium precisa confirmar duas vezes um pedido feito por uma assinante da Loge Impériale?
O diretor sentiu um leve arrepio percorrer-lhe a nuca.
— N-Não é isso, Vossa Graça. Apenas...
Cassandra sustentou o olhar do homem sem qualquer pressa, se deleitando de sua reação. Apesar de seu rosto se manter sério, a mulher se divertia com o desconforto que causava.
— Apenas?
O diretor hesitou por um breve instante. Era evidente que ele já havia sido informado sobre o ocorrido no banquete realizado no Palácio de Cristal na noite anterior. Alguns conhecidos da corte lhe haviam contado, ainda na noite anterior, que a Duquesa de Aurora Boreal deixara o salão logo após ver a primeira bailarina entre os convidados imperiais. Desde então, diversas versões daquela história circulavam pelos corredores do teatro, nenhuma delas particularmente otimista.
Diante daquela sucessão de acontecimentos, era impossível não imaginar o pior. Receava que a presença simultânea da esposa legítima do terceiro príncipe e de sua amante dentro do Teatro Imperium pudesse transformar aquele recinto em palco de um escândalo sem precedentes.
Engolindo em seco, respondeu com o máximo de cautela que conseguiu reunir:
— Perdoe-me, Vossa Graça... apenas imaginei que talvez desejasse tratar de outro assunto. Confesso que fui surpreendido pelo seu pedido.
O sorriso de Cassandra apenas se alargou ao notar que o homem havia levado a mão para o rosto.
— Não precisa parecer tão apreensivo, diretor. Se eu tivesse vindo causar uma cena, não teria solicitado uma conversa reservada no camarim da senhorita Elowen Delacroix. — Desejo apenas falar com a senhorita Elowen Delacroix, nada mais que isso.
O diretor permaneceu alguns segundos em silêncio antes de inclinar respeitosamente a cabeça.
— Como desejar, Vossa Graça. A senhorita Delacroix está em ensaio, mas providenciarei para que seja avisada imediatamente. Peço apenas a gentileza de me acompanhar. Seu camarim é um ambiente reservado e acredito que seja o local mais adequado para esta conversa... longe dos olhos da companhia e de eventuais curiosos. — um sorriso sem graça surgiu em seu rosto — Por favor, poderiam me acompanhar?
Os nascidos Morland fizeram um leve aceno e começaram a acompanhá-lo. Os três começaram a subir a escadaria de mármore branco que conduzia à entrada principal do Teatro Imperium.
A cada degrau subido, a imponência da construção tornava-se ainda mais evidente. Grandes colunas coríntias sustentavam o frontão ricamente ornamentado por esculturas de ninfas, musas e figuras alegóricas das artes, enquanto bandeiras imperiais tremulavam suavemente ao vento frio daquela manhã de inverno.
Sem esperar outra resposta, começou a subir a ampla escadaria de mármore, conduzindo Cassandra e Gawaine para o interior do Teatro Imperium.
Assim que chegaram ao topo e atravessaram as imponentes portas de madeira escura, o calor proveniente dos grandes braseiros espalhados pelo saguão envolveu imediatamente os três, amenizando o frio rigoroso que traziam do lado de fora. O amplo vestíbulo era tão grandioso quanto a fachada do edifício. Altas colunas de mármore branco erguiam-se até o teto abobadado, completamente ornamentado por afrescos que retratavam antigas ninfas, musas e cenas das mais célebres apresentações realizadas no teatro desde a sua fundação. Lustres monumentais de cristal pendiam do teto, espalhando uma luz dourada que fazia o piso polido refletir como um espelho.
Apesar de ainda ser cedo, o Teatro Imperium já despertava para mais um dia de apresentações. Funcionários cruzavam o saguão carregando caixas de figurinos, rolos de tecido, cenários em miniatura e pilhas de partituras destinadas aos músicos da orquestra. Criados iam e vinham em absoluto silêncio, enquanto alguns membros da companhia artística atravessavam os corredores apressadamente, preocupados em não se atrasarem para os ensaios daquela manhã.
O diretor voltou-se discretamente para um dos criados que transitava pelo saguão do teatro e fez um breve gesto com a mão.
— Avise à senhorita Delacroix que a Duquesa de Aurora Boreal deseja falar-lhe em caráter estritamente particular. Diga-lhe que a aguardaremos em seu camarim assim que o mestre de balé lhe conceder alguns minutos.
— Sim, senhor diretor.
O criado inclinou respeitosamente a cabeça e desapareceu pelos corredores internos do Teatro Imperium.
O diretor tornou a voltar-se para Cassandra.
— Se Vossa Graça fizer o favor de acompanhar-me.
Sem esperar outra resposta, começou a subir a ampla escadaria de mármore, conduzindo Cassandra e Gawaine para o interior do Teatro Imperium.
Assim que atravessaram as imponentes portas de madeira escura, o calor proveniente dos grandes braseiros espalhados pelo saguão envolveu imediatamente os três, amenizando o frio rigoroso que traziam do lado de fora. O amplo vestíbulo era tão grandioso quanto a fachada do edifício. Altas colunas de mármore branco erguiam-se até o teto abobadado, completamente ornamentado por afrescos que retratavam antigas ninfas, musas e cenas das mais célebres apresentações realizadas no teatro desde a sua fundação. Lustres monumentais de cristal pendiam do teto, espalhando uma luz dourada que fazia o piso polido refletir como um espelho.
Apesar de ainda ser cedo, o Teatro Imperium já despertava para mais um dia de apresentações. Funcionários cruzavam o saguão carregando caixas de figurinos, rolos de tecido, cenários em miniatura e pilhas de partituras destinadas aos músicos da orquestra. Criados iam e vinham em absoluto silêncio, enquanto alguns membros da companhia artística atravessavam os corredores apressadamente, preocupados em não se atrasarem para os ensaios daquela manhã.
A presença da Duquesa de Aurora Boreal, contudo, foi suficiente para alterar discretamente o ambiente. À medida que Cassandra avançava ao lado de Gawaine, conversas eram interrompidas, passos diminuíam de ritmo e olhares curiosos voltavam-se para a pequena comitiva. Os funcionários inclinavam respeitosamente a cabeça, enquanto bailarinos, músicos e costureiras afastavam-se para abrir passagem, evitando permanecer em seu caminho por mais tempo do que a etiqueta permitia.
O diretor manteve-se alguns passos à frente, conduzindo-os pelo amplo saguão sem desviar o olhar do caminho. Embora procurasse aparentar absoluta tranquilidade, era impossível ignorar a tensão que ainda pesava sobre seus ombros. Sabia que bastava um único comentário indiscreto para que toda a companhia descobrisse que a esposa do terceiro príncipe de Alfidia caminhava naquele exato momento em direção ao camarim da mulher apontada havia anos como sua amante. Por essa razão, apressou discretamente o passo, conduzindo os dois Morland para os corredores reservados aos artistas, onde o movimento era significativamente menor.
O diretor conduziu os dois Morland através do vasto vestíbulo sem diminuir o passo.
À medida que avançavam, o brilho quase ofuscante do saguão começava lentamente a ficar para trás. A música distante da orquestra, que até então chegava apenas como um murmúrio, tornava-se cada vez mais perceptível, misturando-se ao ruído compassado de dezenas de pessoas trabalhando para que, dentro de menos de uma hora, tudo estivesse perfeito.
Pouco antes da grande escadaria principal, o diretor desviou discretamente do caminho seguido pelo público e atravessou um amplo arco ornamentado por relevos dourados. Dois criados abriram imediatamente as portas, permitindo-lhes acesso a um corredor reservado exclusivamente aos membros da companhia artística e aos convidados da família imperial.
O ambiente se transforma gradualmente. Os lustres monumentais davam lugar a luminárias de bronze presas às paredes. O mármore continuava presente, embora menos exuberante, substituído aqui e ali por painéis de madeira escura cuidadosamente encerados. O luxo permanecia evidente, mas assumia uma função mais discreta, privilegiando a praticidade necessária aos bastidores de um teatro daquela dimensão.
Enquanto caminhavam, a vida escondida do Teatro Imperium revelava-se diante deles.
Bailarinas cruzavam os corredores envoltas em grossos xales de lã, protegendo os músculos do frio antes do início do espetáculo. Algumas mantinham os cabelos parcialmente presos, outras ainda ajustavam delicadamente as fitas de suas sapatilhas enquanto caminhavam. Ao perceberem a presença da duquesa, interrompiam imediatamente qualquer conversa, curvando-se respeitosamente antes de seguir adiante.
Mais adiante, músicos afinavam discretamente seus instrumentos junto a uma sala de ensaio. O som cristalino de um violino misturava-se às notas profundas de um violoncelo, enquanto um pianista repetia incansavelmente os mesmos compassos, acompanhado pelas correções firmes do maestro.
Funcionários transportavam cenários sobre plataformas com rodas, costureiras atravessavam os corredores carregando vestidos protegidos por capas de tecido e rapazes da maquinaria desapareciam por enormes portas de ferro que conduziam às galerias superiores, responsáveis pelo complexo sistema de cordas e contrapesos que movimentava os cenários durante as apresentações.
O aroma de cera, madeira recém-polida, tinta, tecidos novos e perfume francês misturava-se no ar, criando aquele cheiro característico dos bastidores, onde a arte nascia muito antes de alcançar o palco.
O diretor manteve-se em silêncio durante todo o percurso. Embora procurasse aparentar serenidade, seu olhar inquieto denunciava a preocupação que ainda o consumia.
Sabia perfeitamente que bastaria um comentário indiscreto para que toda a companhia descobrisse que a esposa do terceiro príncipe caminhava, naquele exato momento, em direção ao camarim da mulher apontada havia anos como sua amante. Por essa razão, conduziu-os por corredores cada vez mais reservados, afastando-os das áreas de maior circulação.
Por fim, parou diante de uma elegante porta de madeira de nogueira, ornamentada por delicados entalhes dourados. Uma discreta placa de bronze identificava o aposento:
Mademoiselle Elowen Delacroix
Première Danseuse du Théâtre Imperium.
O diretor voltou-se para Cassandra.
— Se Vossa Graça permitir, pedirei que aguardem apenas alguns instantes. A senhorita Delacroix deverá chegar assim que o mestre de balé encerrar o ensaio.
Cassandra limitou-se a um breve movimento de cabeça.
O diretor retirou um pequeno molho de chaves do bolso interno da casaca e introduziu uma delas na fechadura. O mecanismo girou suavemente antes que ele empurrasse a porta de madeira de nogueira.
— Sejam bem-vindos.
O aposento revelou-se muito mais amplo do que Gawaine e Casaandra imaginariam. Ao contrário dos camarins modestos destinados aos demais integrantes da companhia, aquele refletia o prestígio reservado à primeira bailarina do Teatro Imperium.
As paredes eram revestidas por delicados painéis de madeira clara ornamentados por molduras douradas, enquanto um espesso tapete com padronagens típicas de Bellaria cobria quase toda a extensão do piso, abafando completamente o som dos passos.
Próximo à janela, altas cortinas de veludo azul-marinho permaneciam parcialmente abertas, permitindo que a luz pálida daquela manhã de inverno penetrasse suavemente no ambiente. Sobre um elegante sofá estofado repousavam um xale de lã creme, algumas partituras e um exemplar bastante manuseado de um libreto de balé, que aparentava ser mais antigo.
À direita, uma penteadeira de madeira entalhada ocupava quase toda a parede. O grande espelho oval era cercado por dezenas de pequenas lâmpadas, refletindo frascos de perfume Alfidiano, escovas de cabelo com cabo de marfim, caixas de jóias e delicados potes de pó de arroz cuidadosamente organizados na penteadeira. Entre aqueles objetos, repousava um pequeno buquê de lírios brancos já parcialmente desabrochados, ainda envolvido por uma fita de seda.
Mais ao fundo, um biombo de seda bordado com motivos florais escondia o espaço reservado para a troca de figurinos. Sobre um manequim encontrava-se o traje que seria utilizado na apresentação daquela manhã: um delicado vestido de balé confeccionado em tule branco, bordado com fios prateados que cintilavam discretamente sob a luz dos lustres.
O ambiente era tomado por um perfume suave de lavanda, íris e cera de abelha, misturado ao característico aroma da madeira encerada.
O diretor afastou-se alguns passos para permitir que ambos entrassem.
— Peço desculpas pela simplicidade do ambiente, Vossa Graça. A senhorita Delacroix costuma permanecer aqui apenas entre um ensaio e outro, ela não gosta muito de demonstrações excessivas de luxo…
Gawaine lançou um rápido olhar ao redor.
Simplicidade? Se isso é um camarim simples, imagine o mais luxuoso…
Aquele camarim estava muito distante do que ele chamaria de simples. Mesmo sem possuir a ostentação dos salões imperiais, o camarim refletia o enorme prestígio alcançado pela primeira bailarina. Tudo ali era cuidadosamente escolhido, desde os móveis até os menores objetos sobre a penteadeira.
Cassandra permaneceu em silêncio. Seu olhar percorreu lentamente cada detalhe do aposento, como se procurasse compreender quem era a mulher que vivia entre aquelas paredes.
Nada parecia extravagante. Não havia excesso de jóias espalhadas, vestidos luxuosos abandonados pelo chão ou demonstrações de riqueza desnecessárias. Pelo contrário. Tudo encontrava-se impecavelmente organizado, quase meticulosamente.
Aquilo, por algum motivo, despertou sua curiosidade ainda mais. O diretor permaneceu próximo à porta.
— Com licença, Vossa Graça. Informarei à senhorita Delacroix da presença de uma pessoa que deseja falar com ela a sós.
Cassandra apenas assentiu.
Assim que a porta se fechou atrás dele, o silêncio tomou conta do camarim.
Ao longe, ainda era possível ouvir o som abafado de um piano marcando o ritmo dos ensaios, seguido pelas instruções firmes do mestre de balé e pelo leve compasso de dezenas de sapatilhas deslizando sobre o palco.
Faltava muito pouco. Pela primeira vez desde que chegara ao Teatro Imperium, Cassandra percebeu que seu coração começava a bater mais forte.
Dentro de alguns minutos, estaria frente a frente com Elowen Delacroix. E, talvez, diante da única pessoa capaz de responder perguntas que a atormentavam havia anos.
Após alguns minutos de espera, a Renoir começou a ouvir passos suaves se aproximando pelo assoalho de madeira e ao olhar para o seu primo, ela notou um sorriso surgir no rosto de Gawaine Morland.
— Ela está se aproximando, Cassandra. Você deseja que eu espere você do lado de fora?
A ruiva permaneceu alguns instantes em silêncio. Seu olhar voltou-se lentamente para a porta do camarim.
Aqueles passos eram leves, ritmados e incrivelmente seguros. Não havia hesitação neles. Quem quer que estivesse caminhando por aquele corredor já havia repetido aquele mesmo trajeto centenas de vezes.
Cassandra respirou profundamente.
— Não, agora.
Gawaine arqueou discretamente uma das sobrancelhas.
— Prefiro que permaneça aqui.
O conselheiro sustentou-lhe o olhar por alguns instantes.
— Tem certeza?
— Tenho. Quando ela chegar, você pode
De repente, o moreno ouviu os passos da bailarina do lado de fora e uma respiração sôfrega do lado de fora, enquanto ele ouvia os cochichos entre a amante de Edward e o diretor.
— Cassandra...
Ao voltar-se para o moreno, a ruiva percebeu um discreto sorriso divertido se formar nos lábios do homem.
— O que foi, Gawaine?
O conselheiro soltou um leve suspiro antes de responder.
— A bailarina está aqui fora... e pelo que estou ouvindo, ela está consideravelmente mais nervosa do que você.
— Nervosa? — sussurrou baixinho e Cassandra arqueou levemente uma das sobrancelhas.
Gawaine confirmou com um pequeno movimento de cabeça.
— A respiração dela está acelerada. Creio que o diretor acabou de revelar quem deseja falar com ela.
Cassandra voltou a dirigir o olhar para a porta fechada. Curiosamente, aquela informação não lhe trouxe qualquer satisfação e apenas reforçou a sensação de que, do outro lado daquela porta, existia uma mulher que também acabou de ser colocada diante de uma realidade para a qual não tivera tempo de se preparar.
— Cassandra, abra a porta e olhe para o lado.
Cassandra caminhou em direção da porta e respirou profundamente antes de abri-la e, ao fazê-lo, viu uma jovem de estatura mediana parada em frente a porta
Quando a mulher e o diretor do teatro perceberam que a mulher ruiva os olhava seriamente, ambos se mantiveram em estado de choque por um breve instante. Ao notar que a Duquesa ergueu uma sobrancelha e o olhou com desdém ao notar que o diretor endireitou discretamente a postura, enquanto a jovem pareceu prender a respiração, como se não soubesse ao certo qual atitude deveria tomar diante da esposa do terceiro príncipe de Alfidia.
A jovem possuía uma beleza discreta, distante da exuberância calculada que tantas damas da alta aristocracia faziam questão de ostentar. Seus traços eram delicados e harmoniosos, marcados por uma suavidade quase etérea que parecia ter sido moldada para o palco. A pele morena de subtom quente possuía um brilho natural, contrastando elegantemente com a gola alta de sua blusa branca e ressaltando ainda mais a delicadeza de suas feições.
O rosto de formato oval era emoldurado por cabelos castanho-escuros cuidadosamente presos em um coque baixo, trançado com a precisão característica de uma bailarina acostumada a ensaios exaustivos. Alguns fios mais curtos escapavam discretamente junto às têmporas, suavizando-lhe a expressão sem comprometer a elegância do penteado.
Seus olhos grandes, de um castanho profundo, possuíam um brilho sereno e contemplativo. Eram olhos expressivos, capazes de transmitir emoções antes mesmo que qualquer palavra lhe escapasse dos lábios. As sobrancelhas bem desenhadas acompanhavam naturalmente o formato do olhar, conferindo-lhe uma aparência doce, porém atenta.
O nariz delicado harmonizava-se perfeitamente com o restante do rosto, enquanto os lábios, de contornos bem definidos e tonalidade naturalmente rosada, costumavam permanecer entreabertos, como se estivesse constantemente prestes a dizer alguma coisa ou a prender a própria respiração antes de entrar em cena.
Não havia nela a imponência intimidadora que Cassandra naturalmente despertava. A primeira impressão que Elowen transmitia era a de uma mulher gentil, quase frágil. Entretanto, bastava observá-la com mais atenção para perceber que aquela delicadeza escondia uma disciplina admirável, lapidada por anos de dedicação ao balé. Havia uma firmeza silenciosa em sua postura, uma elegância adquirida não pelo nascimento, mas pela repetição incansável de movimentos que exigiam perfeição.
Os discretos brincos de ouro adornados por pequenas pedras azul-turquesa acompanhavam um delicado broche preso à gola alta da blusa, revelando um gosto refinado, porém sem qualquer ostentação. Nada em sua aparência parecia escolhido para chamar atenção; cada detalhe refletia apenas sobriedade, bom gosto e funcionalidade, como convinha a uma artista cuja verdadeira grandiosidade se revelava sobre o palco.
— A senhora é Elowen Delacroix?
Quando os olhos da bailarina encontraram com os olhos da mulher ruiva pela primeira vez, compreendeu o motivo das pessoas disserem que Cassandra Renoir dominava o salão com tamanha elegância e seriedade que assombrava até mesmo os homens mais corajosos.
A Delacroix não sabia ao certo o motivo da Duquesa transmitir uma presença tão intimidadora aos olhos das pessoas. Talvez fosse por conta da sua altura incomum entre as mulheres alfidianos, por conta de sua família por parte paterna, ou então, a sua imponência natural.
Era difícil descrever tudo o que aquela mulher rosaliana despertava nas pessoas.
A duquesa permanecia imóvel diante da porta, vestida de branco, com a coluna perfeitamente ereta e o semblante sereno. Não precisou elevar a voz, fazer qualquer gesto brusco ou recorrer ao peso do próprio título para impor respeito. Sua simples presença parecia alterar o ar ao redor.
Por um breve instante, Elowen teve a estranha impressão de estar diante de uma imperatriz, e não apenas de uma duquesa, esposa de um terceiro príncipe.
Durante anos ela ouviu os comentários que circulavam pelos corredores do teatro e pelos salões da aristocracia. Diziam que Cassandra Renoir era orgulhosa, arrogante, cruel e incapaz de demonstrar qualquer afeto. Outros afirmavam que era uma mulher amarga, consumida pelo ressentimento, cuja mulher não fora abençoada com a beleza da imperatriz consorte Cinderela, muito menos, com as bênçãos de gerar uma criança em seu ventre.
Muitos nobres a falavam que o motivo pela sua desgraça era o ódio e a inveja que haviam feito seu ventre apodrecer. Ela era tudo aquilo que o padrão de beleza alfidiano era contra.
A esposa não tinha uma beleza delicada e angelical igual as mulheres alfidianas, os cabelos vermelhos eram ondulados preso em um coque elaborado, formando um contraste intenso com a pele extremamente pálida, salpicada por delicadas sardas que se espalhavam sobre as maçãs do rosto e a ponte do nariz. Longe de suavizarem sua expressão, aquelas pequenas marcas apenas reforçavam a singularidade de sua aparência.
O rosto possuía traços fortes e aristocráticos. O nariz curvo fazia com a morena se lembrasse das gravuras de livros que mostravam o imaginário que as pessoas tinham das bruxas, conferindo-lhe uma imponência incomum, enquanto a mandíbula bem definida e o porte ereto transmitiam uma autoridade que parecia inerente à sua própria existência. Não era uma beleza construída para inspirar delicadeza, mas transmitir respeito e seriedade.
Seu único olho castanho destacava-se imediatamente. Profundo, firme e extremamente expressivo, parecia analisar tudo e todos com uma atenção quase desconfortável, como se fosse capaz de enxergar intenções antes mesmo que elas fossem reveladas. O outro lado do rosto era coberto por um refinado tapa-olho confeccionado em couro negro, ocultando o vazio deixado pelo olho que lhe fora arrancado aos dezoito anos durante o ataque de uma ave. A ausência daquele olho, contudo, não diminuía a beleza que conferia aquela mulher, apesar de que a bailarina acreditava que a grande maioria das pessoas não diziam o mesmo.
Sua postura era impecável. Os ombros permaneciam sempre erguidos, o pescoço mantinha-se ereto e cada movimento era executado com a precisão de alguém que aprendera, desde a infância, que uma duquesa jamais deveria demonstrar hesitação diante do mundo. Havia em seus gestos uma elegância austera, quase régia, que fazia muitas pessoas confundirem sua reserva com arrogância.
Alta e de constituição robusta, Cassandra possuía uma presença física difícil de ignorar. Não precisava elevar a voz nem recorrer a demonstrações de autoridade para dominar um ambiente; bastava entrar em um recinto para que olhares se voltassem naturalmente em sua direção. Sua beleza não era delicada nem etérea, mas imponente, severa e inesquecível, como a de uma antiga rainha retratada nas tapeçarias da história.
Enquanto as pessoas achavam aquela mulher sem beleza e desprezível aos seus olhos, a bailarina acreditava que aquele conjunto de características tornava a sua figura ainda mais marcante e inesquecível.
— Um gato comeu a sua língua, senhora Elowen Delacroix? Imagino que o diretor já tenha lhe informado o motivo da minha visita. — a ruiva olhou de rabo de olho para o homem que havia informado para a protagonista do Ballet “Pele de Asno”.
Ao perceber o olhar de julgamento que Cassandra lhe dirigiu de soslaio, o diretor sentiu um suor frio escorrer discretamente por sua nuca. Por um breve instante, desejou não ter sido o responsável por anunciar aquela visita.
— S-Sim, Vossa Graça... eu apenas informei à senhorita Delacroix que uma pessoa de extrema importância desejava falar com ela em particular.
Cassandra voltou lentamente a olhar para Elowen.
— Vejo que o senhor foi mais discreto do que imaginei. Meus parabéns pela sua discrição. Senhora Delacroix, podemos conversar a sós?
O diretor limitou-se a inclinar a cabeça, sem ousar responder e saíu rapidamente do local. Elowen, por sua vez, permanecia imóvel, mesmo percebendo que a mulher deu espaço para a mulher passar.
Elowen passou pela batente da porta, sentindo o seu coração bater com força suficiente para acreditar que todos ao redor poderiam ouvi-lo. Durante anos imaginara inúmeras possibilidades para o dia em que finalmente estivesse diante da esposa de Edward Renoir. Em nenhuma delas, entretanto, imaginou que aquele encontro aconteceria daquela forma: nos corredores do teatro, logo após um ensaio, sem qualquer tempo para preparar o espírito ou organizar os próprios pensamentos.
Havia ensaiado incontáveis apresentações diante de imperadores, reis, embaixadores e membros das famílias mais influentes dos cinco impérios: Euridice, Alfidia, Rosalian, Octrun e Bellaria. Nunca, porém, sentira tamanho nervosismo apenas para permanecer diante de uma única mulher.
Mesmo assim, fez aquilo que aprendera desde muito jovem. Endireitou discretamente a postura, uniu as mãos à frente do corpo e inclinou respeitosamente a cabeça.
— Sim, Vossa Graça. Sou Elowen Delacroix.
Sua voz saiu baixa, educada e perfeitamente controlada, embora o leve tremor nas últimas palavras denunciasse que seu domínio sobre as próprias emoções estava muito próximo de se romper.
Cassandra sustentou-lhe o olhar durante alguns segundos e fechou a porta quando viu a mulher parar estática no meio de seu camarim, ao ver o Morland. Mas o homem, ao perceber que a mulher havia ficado tensa ao vê-lo, levantou-se imediatamente do sofá onde aguardava em silêncio.
— Peço perdão por minha presença, senhorita Delacroix. — disse com a mesma serenidade que lhe era característica, inclinando respeitosamente a cabeça. — Meu nome é Gawaine Morland. Sou primo de Vossa Graça e conselheiro imperial de relações exteriores de Rosalian.
Elowen permaneceu em silêncio durante alguns instantes. Seus olhos alternaram discretamente entre Cassandra e o homem à sua frente, como se tentasse compreender por que um membro da família Morland acompanhava a duquesa naquela visita tão inesperada.
Gawaine percebeu imediatamente sua hesitação.
— Compreendo o seu desconforto. Imagino que esperasse encontrar apenas a Duquesa de Aurora Boreal.
A bailarina confirmou com um discreto movimento de cabeça.
— Confesso que sim, senhor.
— Fique tranquila. Não tenho qualquer intenção de participar desta conversa. Apenas acompanhei minha prima até o Teatro Imperium por questões particulares que nada dizem respeito à senhora. — o moreno permitiu que um pequeno sorriso cordial surgisse em seus lábios.
Seus olhos castanhos encontraram os de Cassandra por um breve instante.
— Se Vossa Graça assim desejar, aguardarei do lado de fora do camarim até que a conversa termine.
Cassandra concordou com a cabeça e viu o homem sair do camarim da bailarina, ficando assim, somente Cassandra e Elowen Delacroix.
O ambiente voltou a mergulhar em um breve silêncio. A mulher de pele morena permaneceu imóvel, sem saber se deveria permanecer de pé ou tomar a iniciativa de convidá-los a se sentarem. Afinal, aquele era o seu camarim, mas, paradoxalmente, era como se a presença de Cassandra tivesse transformado aquele espaço em território da própria duquesa.
Cassandra permaneceu alguns instantes em silêncio. Seu único olho percorreu lentamente o camarim, detendo-se por um breve momento sobre o buquê de lírios repousado sobre a penteadeira antes de voltar à mulher que permanecia diante dela.
— Não precisa permanecer em pé por minha causa, senhora Delacroix. Eu mesma não irei conversar com a senhora em pé, acho extremamente deselegante de minha parte.
A mulher disse seriamente, enquanto caminhava a passos lentos em direção ao sofá que tinha no camarim. Os olhos da mulher morena piscaram algumas vezes, surpresa com a tranquilidade daquela resposta. Por um instante, permaneceu imóvel, como se tentasse compreender se realmente havia escutado corretamente. Esperava ser interrogada de pé, como uma ré diante de um tribunal, e não convidada a sentar-se pela própria esposa do homem com quem mantivera uma relação durante tantos anos.
— A propósito... acredito que este ainda seja o seu camarim. Não pretende oferecer algo para beber à sua visita? Um chá, um café... talvez vinho?
A pergunta, embora formulada com absoluta naturalidade, fez Elowen arregalar discretamente os olhos.
— P-Peço perdão, Vossa Graça... eu...
A bailarina pareceu despertar do estado de torpor em que se encontrava desde que a duquesa cruzara aquela porta. Levou uma das mãos à testa por um breve instante, claramente constrangida consigo mesma.
— Perdoe-me. A senhora tem toda razão. Fui extremamente descortês.
Apressou-se em aproximar-se de um pequeno aparador de madeira posicionado junto à janela. Sobre ele repousavam uma bandeja de prata, um bule de porcelana ainda envolto por um delicado abafador de tecido, uma cafeteira de cobre cuidadosamente polida, algumas xícaras de porcelana de Bellaria e uma garrafa de vinho tinto ainda lacrada.
— Costumo manter algumas bebidas para receber o maestro ou outros convidados da companhia durante os intervalos dos ensaios.
Voltou-se para Cassandra, ainda visivelmente nervosa.
— O que Vossa Graça prefere?
Cassandra acomodou-se serenamente no sofá, cruzando delicadamente as mãos sobre o colo.
— Chá será suficiente, apesar da situação, não gosto de beber vinho pela manhã.
— De ervas, jasmim ou artemísia?
A ruiva refletiu por um breve instante.
— Artemísia, se não for incômodo.
— De forma alguma.
Enquanto preparava cuidadosamente a bebida, Elowen procurava controlar a respiração. O leve tilintar da porcelana e da prata preenchia o silêncio do camarim, tornando o ambiente menos opressivo.
Cassandra observava cada movimento da bailarina sem dizer uma única palavra. Havia algo curioso naquela cena, durante anos imaginara encontrar uma rival disposta a defender o próprio lugar ao lado de Edward. Em vez disso, encontrava uma mulher que, apesar do nervosismo evidente, preocupava-se em servi-la com a mesma cortesia que demonstraria a qualquer convidado.
Quando a xícara foi colocada delicadamente sobre a pequena mesa diante do sofá, Elowen voltou a endireitar a postura.
— Espero que esteja do seu agrado, Vossa Graça.
Cassandra lançou um breve olhar para o chá fumegante antes de erguer novamente os olhos para a bailarina.
— Obrigada, senhora Delacroix.
Apesar daquela estranha situação, Elowen nunca havia imaginado ouvir uma palavra de agradecimento vindo da esposa de Edward. A situação em si era deveras constrangedora: a esposa e a amante, uma madona e uma prostituta.
Ainda assim, suficiente para surpreender Elowen pela segunda vez naquela manhã. Ela jamais imaginaria ouvir um agradecimento da mulher que, por tantos anos, tivera todos os motivos do mundo para odiá-la e fazer coisas inimagináveis com a sua vida.
O silêncio voltou a instalar-se entre as duas mulheres, o silêncio fez-se presente no recinto.
Elowen permaneceu de pé por alguns instantes, segurando delicadamente as próprias mãos diante do corpo. Parecia procurar as palavras corretas, como se soubesse que qualquer frase mal colocada poderia transformar aquela conversa em uma tragédia ainda maior.
Foi Cassandra quem rompeu o silêncio.
— Que mania feia, sente-se minha senhora, não gosto de falar com uma pessoa que esteja em pé.
Ao ouvir aquela ordem dita em um tom tão severo, Elowen permaneceu imóvel por um breve instante, como se não tivesse certeza de haver escutado corretamente. Esperava censuras, acusações ou qualquer demonstração de hostilidade. Em vez disso, a esposa do terceiro príncipe preocupava-se com algo tão simples quanto a etiqueta.
— P-Peço perdão, Vossa Graça...
A bailarina aproximou-se lentamente da poltrona posicionada diante do sofá onde Cassandra já se encontrava acomodada. Seus movimentos permaneciam contidos, quase cautelosos, como se temesse que qualquer gesto impensado pudesse desagradar a duquesa.
Sentou-se apenas quando percebeu que Cassandra continuava aguardando, mantendo a coluna ereta e as mãos delicadamente unidas sobre o colo, exatamente como aprendera desde a infância nas rigorosas aulas de etiqueta oferecidas pela companhia de balé.
Mesmo sentada, sua postura permanecia impecável e Cassandra observou discretamente aquele comportamento.
— Assim está melhor.
A ruiva levou calmamente a xícara de chá até os lábios e bebeu um pequeno gole da infusão de artemísia antes de voltar a pousá-la sobre o pires.
— Agora acredito que finalmente possamos conversar como duas mulheres adultas. Imagino que a senhora saiba o motivo da minha visita.
A bailarina sustentou o olhar perante a duquesa de Aurora Boreal.
— Sim... ou, pelo menos, acredito saber do motivo de sua presença está manhã vossa graça. O que a senhora deseja saber?
— Eu gostaria de saber desde quando você e meu marido se conhecem.
Elowen respirou profundamente. Seus dedos entrelaçaram-se com força, denunciando a tensão que tentava esconder.
— Antes de qualquer coisa... permita-me pedir perdão.
— Perdão? — aquelas palavras fizeram Cassandra arquear discretamente a sobrancelha.
A morena confirmou com um lento movimento de cabeça.
— Sei que nenhum pedido de desculpas será capaz de apagar os últimos anos de sua vida. Tampouco espero que Vossa Graça me perdoe. — ela respirou novamente antes de prosseguir. — Mas ainda assim... peço perdão por toda a dor que, direta ou indiretamente, acabei causando.
Cassandra permaneceu em silêncio.
Não havia ira em seu semblante.
Apenas atenção.
Elowen abaixou os olhos para a própria xícara de chá.
— Não pretendo justificar aquilo que fiz. Apenas... acredito que a senhora mereça conhecer a verdade. Conheci o príncipe Edward antes mesmo de seu casamento, na época eu era uma Petit Rats e havia acabado de completar 15 anos e o terceiro príncipe era um frequentador assíduo do teatro Imperium e sempre vinha acompanhado com nobres da mesma que ele na época. — a mulher fez uma breve pausa antes de continuar — Naquela época, Vossa Graça... eu era apenas uma entre tantas meninas de origem extremamente humilde que sonhavam em se tornar bailarinas. O salário que recebíamos mal era suficiente para sobreviver. Muitas de nós sustentávamos nossas famílias ou algum parente idoso. No meu caso... eu precisava cuidar da minha tia, que foi a mulher que me criou desde criança… se não fosse eu, quem iria alimentá-la?
Elowen abaixou discretamente os olhos.
— Não demorou para que eu compreendesse como realmente funcionava aquele teatro. Oficialmente, os homens que frequentavam os camarotes eram conhecidos como abonnés, os assinantes. Esses homens normalmente eram patronos que financiavam a carreira de determinadas bailarinas, custeando aulas, figurinos, tratamentos médicos envolvendo o bem estar físico e as doenças venéreas que muitas acabavam contraindo por conta das relações íntimas que tinham com os seus patronos, moradia e tudo aquilo que o salário jamais permitiria comprar.
A bailarina respirou profundamente.
— Entretanto, todos sabiam que aquele sistema existia por outro motivo. Os abonnés tinham livre acesso aos bastidores, aos ensaios e aos camarins. Em troca do patrocínio, esperavam receber favores sexuais. Muitas jovens aceitavam porque simplesmente não tinham outra forma de continuar vivendo ou permanecer na companhia.
Seus dedos apertaram delicadamente a xícara ao se lembrar do seu começo no teatro e de como ela havia se
— Foi nesse contexto que o príncipe Edward se aproximou de mim. Ele perguntou se eu aceitaria que ele se tornasse meu abonné e eu aceitei, me tornando sua bonequinha de luxo, sua prostituta particular, da qual ele poderia usufruir como bem entendesse. — respirou profundamente, contendo a vontade de chorar. — Ao menos, ele nunca permitiu que eu me envolvesse com os outros abonnés. Isso me protegeu de encontrar um fim antes do previsto por conta dessas malditas doenças que assolam os leitos conjugais dos “bons” homens. Manteve-me exclusivamente sob seu patrocínio durante todos esses anos, sendo assim, jamais precisei dividir-me entre diversos patronos, como tantas outras bailarinas eram obrigadas a fazer.
Elowen ergueu lentamente os olhos para Cassandra.
— Se essa insegurança te aflinge minha senhora, eu não aceitei porque o amava. Nunca o amei e nem hei de amá-lo, Vossa Graça, ele era apenas o meu patrono, a única fonte de recursos que me permitia continuar dançando e sustentar minha tia
Sua voz saiu firme, apesar da tristeza evidente.
— Aceitei porque precisava sobreviver. Precisava continuar dançando pois a dança era a minha única companhia, enquanto eu tentava esquecer que a fome e o frio batia em minha porta. Precisava garantir que minha tia tivesse uma vida digna. Sem um patrono, dificilmente eu teria permanecido tempo suficiente no Teatro Imperium para me tornar a primeira bailarina.
Houve um breve silêncio antes que ela concluísse:
— Durante todos esses anos, a nossa relação jamais foi construída sobre amor. Foi um acordo. Um acordo que me permitiu ascender na carreira e continuar vivendo.
Sua voz vacilou pela primeira vez, em meio ao silêncio absoluto que se fez presente no recinto. Enquanto as memórias invadiam a sua mente perturbada e a fazia reviver todos aqueles momento díficeis.
Cassandra permaneceu em estado de choque ao notar que, durante todos aqueles anos, jamais existira uma rival apaixonada por seu marido, mas apenas uma mulher que aprendera, ainda na adolescência, que o próprio corpo era o preço que deveria pagar para sobreviver.
— Se permaneci ao lado dele durante todos esses anos... não foi porque o amava. — ela balançou lentamente a cabeça e em uma tentativa de amenizar sua dor, seus olhos perderam-se por um instante na janela coberta pela neve. — Nunca o amei. Permaneci porque, durante muito tempo, acreditei que aquela era a única maneira de continuar viva... e de garantir que minha tia também sobrevivesse.
Ela voltou a encarar Cassandra.
— Talvez isso faça de mim uma covarde. — seu sorriso foi pequeno e profundamente triste. — Mas nunca uma mulher apaixonada.
Cassandra passou a mão pelo seu rosto, tentando absorver tudo o que havia sido despejado sobre o seu corpo naquele pouco tempo que havia conhecido a pouco tempo.
— Então... vocês dois tinham quinze anos. — sussurrou para si mesma, mas ela havia percebido que falará alto o suficiente para a Delacroix ouvir e acenar com a cabeça, confirmando discretamente.
A ruiva apoiou lentamente a xícara sobre a mesa.
— Isso explica muitas coisas. — houve uma breve pausa. — Dois adolescentes dificilmente compreendem o peso das próprias escolhas. Ainda mais quando são criados em um ambiente onde esse tipo de demonstração de poder é tratado como algo perfeitamente aceitável, principalmente atrás das cortinas.
Cassandra voltou a olhar para Elowen.
— Não acredito que uma menina de quinze anos pudesse compreender plenamente as consequências daquele acordo. Tampouco acredito que um rapaz da mesma idade tivesse maturidade suficiente para compreender a dimensão do poder que exercia como príncipe. — sua voz permaneceu tranquila. — O que me causa espanto... não é a forma como essa história começou. É a forma como ela continuou.
Seus olhos tornaram-se mais sérios.
— Meu marido tornou-se um homem adulto. Casou-se. Fez votos diante dos deuses. Ainda assim, escolheu manter essa relação durante anos, permitindo que toda a corte zombasse da honra de sua esposa.
Cassandra respirou profundamente.
— É isso que eu jamais conseguirei compreender.
— Talvez não haja tantas diferenças entre nós quanto eu imaginei, senhora Delacroix. Crescemos em mundos completamente distintos, mas ambos nos ensinaram, desde muito cedo, que nossos corpos jamais nos pertenceriam por completo. — ela fez uma breve pausa, mantendo as mãos repousadas sobre o colo. Seu único olho permaneceu fixo sobre Elowen. — O seu tornou-se um investimento para homens ricos que compravam o direito de atravessar aquela porta e entrar em seu camarim. O meu tornou-se propriedade da Casa Imperial no instante em que fui prometida em casamento.
— De fato, a pouca distinção entre uma prostituta e uma mulher de alta classe, como a senhora e eu, é que uma vende o próprio corpo em troca de dinheiro, enquanto a outra o entrega em troca de um título, de alianças políticas e da continuidade de uma linhagem. No fim, ambas aprendem desde muito cedo que seus corpos jamais lhes pertencem. Apenas mudam os compradores, os contratos e a forma como a sociedade decide julgá-las.
— No fim das contas, a sociedade apenas escolheu formas diferentes de nos desumanizar. Ela condenou a senhora por sobreviver e condenou a mim por simplesmente existir. — um discreto sorriso amargo surgiu por um breve instante em seus lábios. — Eles acreditam que os corpos das mulheres são corpos públicos. Julgam-se no direito de observá-los, comentá-los e decidir o que somos. Vivem mergulhados em um mar de especulações: esta mulher é uma meretriz ou uma madonna?
Ao terminar de beber o chá de artemísia, Cassandra colocou a xícara de chá sobre a mesinha de centro e se levantou. O seu olho se voltou para aquela mulher, que diferente da noite anterior, não demonstrava a mesma segurança que ela aparentava ter em um palco.
— Espero que você encontre um pouco de paz, apesar de tudo o que você passou nesses últimos anos.
Ao ouvir as palavras vindas da Duquesa de Aurora Boreal, a mulher de olhos doces sentiu um nó se formar em sua garganta e levou a sua mão até a garganta, por alguns instantes, limitou-se a observar a mulher ruiva à sua frente. Jamais imaginaria que ouviria palavras daquela natureza vindas justamente da esposa do homem com quem mantivera um relacionamento durante tantos anos.
Os seus olhos se marejaram ao perceber que apesar da presença súbita daquela mulher foram o suficiente para que ela encerra-se um ciclo que ela jamais achou teria um fim em sua vida.
Seus olhos marejaram discretamente.
— Obrigada... Vossa Graça. — sua voz saiu quase como um sussurro. — Não acredito merecer tamanha compreensão. Durante muito tempo pensei que, se algum dia estivéssemos frente a frente, a senhora teria todos os motivos do mundo para me odiar.
A mulher respirou forte mais uma vez, ao ver a mulher ruiva próxima a porta, que detinha a sua mão próxima a maçaneta.
— Antes que a senhora se vá, eu tenho uma informação importante para lhe dar vossa graça.
Cassandra permaneceu em silêncio, aguardando a revelação dela e ao notar isso, Elowen se levantou e se aproximou da sua penteadeira, onde o seu buquê de lírios que ela havia recebido quando chegou pela manhã.
— Na verdade... eu já havia tomado uma decisão antes mesmo de vê-la no banquete do Palácio de Cristal. — houve uma breve pausa, enquanto reunia a coragem — Há alguns meses venho refletindo sobre tudo o que aconteceu durante esses anos. Compreendi que já não desejo continuar vivendo dessa maneira.
Um pequeno sorriso melancólico surgiu em seus lábios ao se lembrar de que naquela manhã ocorreria o seu último espetáculo.
— A apresentação desta tarde será a última da minha carreira no Teatro Imperium. Depois que as cortinas se fecharem pela última vez, encerrarei oficialmente minhas atividades como primeira bailarina desta companhia. — seus olhos voltaram-se para a janela coberta pela neve. — Dentro de algumas horas partirei para Rosalian.
Cassandra permaneceu em silêncio e sentiu um sopro perpassar o seu ouvido. Aquelas palavras ecoaram em sua mente por alguns instantes e ela por um instante sentiu que iria perder a sua tábua de salvação e a chance de se separar de Edward.
Se Elowen realmente partisse para Rosalian e rompesse definitivamente qualquer vínculo com Edward, o príncipe perderia justamente a mulher por quem arriscara durante tantos anos a honra do próprio casamento.
Pela primeira vez desde que descobrira a dimensão daquela relação, Cassandra percebeu que o destino parecia colocar diante dela uma oportunidade que jamais imaginara possuir.
Ela ainda não dispunha de provas cabais que lhe permitissem solicitar a dissolução do matrimônio perante o Conselho Imperial. Durante anos, tudo não passara de rumores, comentários sussurrados pelos corredores do Palácio de Cristal e insinuações que jamais poderiam ser transformadas em evidências concretas.
Agora, contudo… o destino parecia lhe dar uma oportunidade de se livrar de uma vez por todas daquele maldito casamento. Talvez aquela mulher fosse a única pessoa capaz de confirmar oficialmente aquilo que toda a corte fingia não enxergar.
A ideia atravessou sua mente por um breve instante, mas Cassandra não a verbalizou. Seria profundamente injusto transformar, logo naquele momento, a mulher que estivera diante dela confessando toda a própria vida em apenas mais uma peça de um processo de separação.
Antes de qualquer título, de qualquer processo ou de qualquer escândalo político, havia duas mulheres sentadas naquele camarim, ambas marcadas por um homem que fizera escolhas das quais somente elas carregaram as consequências. Cassandra respirou lentamente, tentando achar uma escapatória para se separar de Edward Renoir.
— Você tem alguma rede de apoio para ajudar você nessa nova jornada?
— Não, mas ao menos eu sei me virar, já tenho tudo preparado para começar uma nova vida, longe dos camarotes, dos abonnés... e de tudo aquilo que me acompanhou desde os quinze anos. — Elowen voltou a encarar a duquesa. — Não pretendo informar ao príncipe Edward que nossa relação termina hoje. Não desejo mais vê-lo, quero desaparecer como uma nuvem de fumaça, sem deixar rastros de Elowen Delacroix.
Lágrimas silenciosas insistiam em percorrer pelo seu rosto, mas ela as secou suavemente com o lenço que sempre andava consigo para não manchar a sua maquiagem.
— A Partir de hoje quero dar uma oportunidade para Ragnell Dumont ser feliz, mesmo que eu saiba, que ela nunca estará completa.
Sua voz saiu serena, embora carregada por uma tristeza silenciosa e ao ouvir aquelas palavras da mulher que dedicou boa parte de sua vida à arte, fez com que Cassandra se sentisse desarmado de um modo que ela conseguia escrever em palavras.
— Caso você precise de ajuda, entre em contato com o Sir Gawaine Morland, ele irá me informar. Além disso, ele é conselheiro imperial de relações exteriores de Rosalian e possui influência suficiente para auxiliá-la a estabelecer-se naquele império. Tenho certeza de que fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudá-la. — os dedos da nascida Morland se envolveram ao redor da maçaneta da porta, mas ela não a girou imediatamente. Permaneceu imóvel por um breve instante, como se ainda refletisse sobre tudo o que acabara de ouvir. Seu único olho voltou-se discretamente para Elowen antes que ela respirasse fundo. — Desejo, sinceramente, que encontre em Rosalian a liberdade que lhe foi negada durante todos esses anos, senhorita Ragnell.
Cassandra abriu a porta do camarim e saiu antes mesmo que a mulher pudesse agradecer pelas palavras gentis. Ao fechar a porta do camarim da bailarina principal do Teatro Imperium, a irmã postiça da imperatriz Cinderela se deparou com um mar de homens atrás das coxias.
Alguns eram nobres que ela conhecia há anos. Outros ocupavam cargos importantes na administração imperial, enquanto alguns pertenciam às famílias mais influentes de Alfidia. Todos, sem exceção, encontravam-se vestidos com impecáveis casacas de gala, como convinha aos convidados que, poucas horas antes, haviam participado do banquete oferecido pelo imperador.
Muitos daqueles homens eram rostos extremamente familiares. Nobres, ministros, comerciantes influentes, oficiais do exército e membros das mais tradicionais famílias de Alfidia. Muitos haviam comparecido ao banquete oferecido pelo imperador na noite anterior e, naquela mesma manhã, encontravam-se ali, circulando pelos bastidores com uma naturalidade que revelava o quanto aquele ambiente lhes pertencia.
Alguns conversavam discretamente com jovens bailarinas envoltas em xales de lã, enquanto outros entregavam pequenos buquês de flores, caixas de bombons importados, joias delicadamente acomodadas em estojos de veludo e cartas cuidadosamente lacradas com cera. Havia ainda aqueles que apenas observavam suas respectivas petits rats com a familiaridade de quem retornava para visitar uma propriedade que julgava ser sua.
Ao olhar para o lado, a nascida Morland viu que Gawaine permanecia encostado discretamente à parede ao lado da porta, exatamente onde prometera esperá-la. Mas assim que a viu sair do camarim, o homem moreno descruzou lentamente os braços e endireitou a postura.
Entretanto, antes mesmo que pudesse dirigir-lhe a palavra, ambos perceberam que dezenas de olhares voltavam-se discretamente para Cassandra e para Gawaine. Os murmúrios dos homens e das dançarinas mais jovens que faziam parte do corpo de Ballet é todas as conversas cessaram uma após a outra.
Mãos que ainda seguravam flores e pequenos presentes permaneceram suspensas no ar. Alguns nobres afastaram-se discretamente das jovens bailarinas, enquanto outros endireitaram apressadamente as casacas, como se isso fosse suficiente para apagar aquilo que a duquesa acabara de presenciar.
A nuvem de fumaça que pairava pelo recinto, alimentada pelos cachimbos e charutos de alguns daqueles nobres, parecia tornar o ambiente ainda mais pesado. O aroma intenso do tabaco misturava-se ao perfume francês das bailarinas e ao cheiro de madeira encerada dos bastidores, compondo um cenário que, aos olhos de Cassandra, representava com exatidão a hipocrisia da aristocracia alfidiana.
O rosto da ruiva percorreu lentamente aquele corredor com o único olho castanho, observando um rosto após o outro e se lembrou de que por inúmeras vezes quando ela acompanhava Edward na Cúpula dos Milagres ela encontrara aqueles mesmos homens ao lado de suas esposas e filhos, fazendo suas preces ao Senhor da Luz. No entanto, aquilo não passava de preces de homens hereges que julgavam serem superiores a tudo e a todos.
Sabia perfeitamente o nome de suas esposas, de seus filhos e das famílias que representavam na corte. Muitos discursavam sobre honra, moral, religião e bons costumes durante os banquetes do Palácio de Cristal. Agora, encontrava-os ali, distribuindo presentes às suas amantes que tinham a mesma idade de suas filhas ou netas, enquanto as próprias esposas provavelmente permaneciam em casa, cuidando dos filhos e preservando a respeitabilidade dos sobrenomes que carregavam.
Um sorriso lento surgiu no rosto da duquesa ao notar o olhar de assombro daqueles homens, aquele não era um sorriso de alegria, era um sorriso de absoluto desprezo.
Uma breve risada escapou de seus lábios, uma risada baixa e contida, desprovida de qualquer alegria. Havia nela apenas ironia, como se a hipocrisia daqueles homens fosse tão previsível que chegasse a ser ridícula.
— Que curioso... as preces de um herege são mais sinceras do que dos formalista daqueles que enchem a boca para falar da boa moral, mas são incapazes de viver os ensinamentos que Ashlan deixou ao seu escudeiro.Que curioso... as preces de um herege são mais sinceras do que dos formalista daqueles que enchem a boca para falar da boa moral, mas são incapazes de viver os ensinamentos que Ashlan deixou ao seu escudeiro.
Ainda assim, suficiente para fazer vários daqueles homens baixarem os olhos, incapazes de sustentar o olhar da mulher que, durante tantos anos, haviam chamado pelas costas de "a irmã malvada".
O silêncio permaneceu absoluto por alguns instantes e ninguém ousou responder a fala da filha do falecido Duque Morland.
Gawaine lançou um discreto olhar ao redor. Bastava observar aqueles rostos para compreender que as palavras de Cassandra haviam atingido exatamente onde deveriam. Não havia indignação. Apenas constrangimento.
O conselheiro aproximou-se calmamente da prima e disse em tom baixo, para que somente a mulher pudesse ouvir.
— Vossa Graça, precisamos ir...
Cassandra não voltou a olhar para nenhum daqueles homens e o sorriso irônico desapareceu tão rapidamente quanto surgira, dando lugar à feição habitual de poucos amigos.
— Vamos, Gawaine.
O moreno limitou-se a inclinar respeitosamente a cabeça e ergueu o braço para que ela pudesse entrelaçar o seu. Cassandra aceitou o gesto com absoluta naturalidade, apoiando delicadamente a mão sobre o antebraço do primo.
— Como desejar, prima.
Sem dizer mais uma única palavra, ambos seguiram em direção à saída do Teatro Imperium. Ambos começaram a caminhar pelo corredor das coxias sem qualquer pressa.
À medida que avançavam, os próprios nobres abriam caminho em absoluto silêncio, como se a simples presença da duquesa tornasse insuportável permanecer diante dela. Alguns desviavam os olhos; outros mantinham o semblante rigidamente voltado para o chão. Nenhum deles encontrou coragem para sustentar o olhar da mulher que, poucos instantes antes, chamavam pelas costas de "a irmã malvada".
Cassandra não lhes dirigiu mais nenhuma palavra, pois já havia dito tudo o que precisava. Poucos minutos depois, ambos atravessaram os grandes corredores do Teatro Imperium e alcançaram a saída principal.
Assim que as pesadas portas se abriram, uma lufada do ar gelado do inverno alfidiano envolveu os dois. Flocos de neve continuavam a cair lentamente sobre as ruas da capital, cobrindo de branco as carruagens estacionadas diante do teatro e silenciando o tumulto da cidade.
Cassandra ergueu discretamente o rosto para o céu por um breve instante, permitindo que alguns flocos repousassem sobre seus cabelos avermelhados.
Gawaine permaneceu em silêncio ao seu lado. Notando o vermelho vibrante do cabelo que era tão típico dos Morland, se contrasta naquele frio quadro monocromático que ele havia passado a enxergar desde os sete anos de idade.
Havia aprendido, desde muito jovem, que existiam momentos em que o maior gesto de respeito era simplesmente não fazer perguntas. A única coisa que ele se permitiu a fazer foi retirar alguns flocos de neve sobre o seu Bonnét e ajudá-la a descer
Os dois seguiram em direção à carruagem da família real. Atrás deles, o Teatro Imperium permanecia tomado pela mesma inquietação que Cassandra deixara entre aqueles corredores. Dentro de poucas horas, as cortinas se abririam mais uma vez para o último espetáculo de Elowen Delacroix.
— Cassandra, você teria algum problema de me acompanhar até o Templo das Deusas-Bruxas? Há algo que gostaria de lhe informar, aquele é o melhor local para que eu possa revelar o conteúdo que tem na pasta.
— Gawaine, eu não tenho problema algum de acompanhá-lo até o Templo. Apesar de ter crescido em Alfidia e de saber que o Ashlanismo é a religião predominante neste império, confesso que há muitos anos deixei de me vincular a qualquer crença. Não pratico religião alguma, portanto não vejo motivo para recusar o seu convite.
— Fico muito aliviado em ouvir isso. Na verdade, eu não sabia se a senhora ainda seguia os costumes de Rosalian ou se havia abraçado completamente o Ashlanismo durante os anos em que viveu em Alfidia. — o Morland disse tranquilamente enquanto se permitia soltar um suspiros de alívio — Como a senhora deixou Rosalian ainda muito pequena, imaginei que talvez o Templo das Deusas-Bruxas lhe causasse algum desconforto. Não desejava colocá-la em uma situação desagradável.
— O Templo fica longe daqui?
— Não, na realidade, o Templo é bem próximo daqui. Conseguiremos chegar em poucos minutos, mesmo caminhando. Além disso, acredito que um pouco de ar fresco nos fará bem depois de tudo o que aconteceu nesta manhã.
— Se é próximo daqui, basta avisarmos o cocheiro. — a filha primogênita de Thomas Morland e Judith Navinia respondeu com tranquilidade.
Os primos Morland se aproximaram do cocheiro que aguardava pacientemente junto à carruagem imperial. O homem, ao reconhecer a duquesa e o conselheiro de relações exteriores de Rosalian, inclinou-se respeitosamente.
— Vossas Graças.
A duquesa ajeitou sua postura e olhou para o fundo dos olhos do cocheiro e disse:
— Houve uma pequena alteração em nosso itinerário. Antes de retornarmos ao Palácio de Cristal, iremos dar uma volta pela cidade a pé. Enquanto isso, permaneça com a carruagem estacionada em frente ao Teatro Imperium. Retornaremos dentro de algumas horas.
O cocheiro apenas confirmou com um discreto movimento de cabeça.
— Como desejar, vossas graças.
Sem dizer mais uma única palavra, Cassandra voltou-se para Gawaine. O moreno limitou-se a inclinar discretamente a cabeça e ambos seguiram lado a lado pelas ruas cobertas pela neve, afastando-se lentamente do Teatro Imperium.
Durante alguns instantes, nenhum dos dois ousou quebrar o silêncio. O único som que os acompanhava era o ranger suave da neve sob seus passos e o distante tilintar das carruagens que cruzavam a capital alfidiana naquela manhã de inverno.
Cassandra mantinha o olhar fixo à frente. Embora sua expressão permanecesse serena, sua mente ainda revisitava cada palavra pronunciada por Elowen Delacroix naquele camarim. Pela primeira vez em muitos anos, compreendia que a mulher que durante tanto tempo imaginara ser sua rival jamais passara de mais uma vítima de um sistema construído para favorecer homens como Edward.
Ao seu lado, Gawaine permaneceu em absoluto silêncio. Sabia que sua prima precisava de alguns instantes para organizar os próprios pensamentos antes que uma nova verdade lhe fosse apresentada.
Sem perceberem, ambos seguiram em direção ao antigo Templo das Deusas-Bruxas, enquanto os sinos da capital anunciavam silenciosamente o início de uma nova manhã. E, sem que quase ninguém soubesse, aquela apresentação encerraria não apenas a carreira da maior bailarina de Alfidia, mas também um dos segredos mais antigos e silenciosos da corte.
