Chapter Text
O sol de Briskar Eiss começava a se pôr, tingindo o lago de tons dourados.
À distância, o garoto continuava seu jogo, alheio ao peso da história que carregava em seu sangue e ao eco de um amor que, mesmo após a morte, ainda pedia para ser lembrado.
Adrilah se levantou, e Rey a acompanhou. Caminharam lado a lado pelo parque, sem pressa.
Por um instante, Adrilah apenas observou o menino, avaliando o momento com uma atenção silenciosa. Então chamou, em um tom firme, mas naturalmente afetuoso:
— Kaeron.
O garoto virou-se quase de imediato. Houve um breve reconhecimento no olhar, seguido de um gesto rápido de despedida do jogo que abandonava. Ele correu na direção delas, diminuindo o passo apenas ao se aproximar.
— Sim?
Adrilah pousou a mão leve sobre o ombro dele.
— Quero que conheça alguém.
Houve uma pausa breve.
— Esta é Rey.
Kaeron voltou o olhar para ela com curiosidade, sem receio, apenas tentando compreender quem estava diante dele.
Rey se inclinou levemente, ajustando a altura ao campo de visão dele.
— Oi, Kaeron.
— Oi — respondeu ele, com naturalidade, observando-a com atenção.
Seus olhos então voltaram-se para Adrilah, como se buscassem algum contexto silencioso.
— Rey é uma grande amiga. Ela é de Exys.
Kaeron pareceu absorver a informação com interesse genuíno.
— Sua viagem foi longa e bem cansativa. Você conhece minha mãe?
Adrilah lançou um breve olhar a Rey, que hesitou por um instante antes de sustentar a resposta com naturalidade.
— Sim, conheço. Ela está bem.
Kaeron então voltou a encará-la, agora com uma atenção mais concentrada.
— Você conheceu meu pai?
A pergunta saiu direta, sem peso dramático, mas com uma clareza que não deixava espaço para evasivas.
Rey manteve o olhar nele, respeitando o alcance daquilo.
— Conheci — respondeu, com suavidade. — E ele foi importante para mim.
O garoto absorveu a resposta em silêncio.
— Ele era mesmo forte… como a madrinha diz?
Rey deixou escapar um leve sorriso.
— Era. Mas não era só isso.
Kaeron franziu levemente a testa.
— Como assim?
Rey inclinou a cabeça, escolhendo as palavras com cuidado, enquanto olhava brevemente para Adrilah.
— Pode falar, Rey. Kaeron sabe sobre o pai. Eu nunca escondi dele suas origens. E nunca tive motivo para esconder quem ele foi.
Rey assentiu, agora mais segura.
— Podemos conversar com calma, Kaeron. Posso te contar mais sobre ele.
Kaeron pareceu considerar a resposta por um instante, mas ainda havia algo em sua curiosidade que não se satisfazia apenas com aquilo.
— Ele se importava com as pessoas? — perguntou. — Ele lutava por elas?
Rey sustentou o olhar dele, tocada pela direção da pergunta.
— Sim — respondeu, com suavidade. — E talvez essa tenha sido a maior força dele. É uma história longa, e não é uma história simples. Mas eu prometo te contar. Acredito que você terá muito orgulho dele.
Kaeron concordou com um pequeno gesto, como se aceitasse guardar aquilo para depois.
Rey voltou a observá-lo com mais atenção.
Não era mais uma criança. Havia algo já definido na postura. Um momento de transição.
— Ele já está naquela fase… — disse Rey, em voz baixa, quase reflexiva — em que certas semelhanças começam a aparecer.
Adrilah a olhou de lado.
— Que tipo de semelhança?
Rey demorou um instante antes de responder.
— Não é só aparência… — fez uma breve pausa — é jeito dele, o modo como ele observa.
Kaeron permaneceu em silêncio, mas atento.
Rey voltou a encará-lo.
— Ele lembra o pai, não apenas fisicamente, mas o jeito, não sei como dizer.
— Você sentiu alguma coisa? — perguntou Adrilah, com naturalidade.
Rey manteve o olhar em Kaeron por alguns instantes antes de responder, ainda dentro da própria percepção.
— Eu não sei exatamente — disse, com honestidade. — Não foi como costuma ser, não houve impacto nem aquela sensação de algo se impondo, nenhuma direção clara.
Seus olhos acompanharam um pequeno gesto do garoto, quase distraído, como se aquilo confirmasse o que tentava organizar.
— Eu só me senti bem, mas não de um jeito superficial. Não é só uma energia boa. É como se não houvesse nada interferindo.
Ela franziu levemente o cenho, buscando precisão sem perder a continuidade.
— Quando alguém é forte na Força, geralmente existe alguma tensão, mesmo que sutil. Algo em formação… ou em conflito. Nele não.
Rey respirou fundo, agora mais segura do que dizia.
— É estável. Mas não no sentido de algo parado… — ajustou — no sentido de algo que já está alinhado.
Seus olhos permaneceram em Kaeron.
— Eu não senti que precisava entender, nem me proteger, nem me preparar para nada. Só estar ali já parecia suficiente.
Adrilah assentiu, como quem compreendia mais do que precisava ser dito.
Rey permaneceu em silêncio por um instante, ainda observando Kaeron. Então acrescentou, com um leve deslocamento no olhar:
— Tem outra coisa.
Adrilah a observou com curiosidade.
— Ele também se parece com você, disse Rey sorrindo, com leveza.
Adrilah deu uma risada espontânea.
— Me parece pouco provável...
Rey voltou o olhar para Kaeron, e depois para Adrilah.
— Talvez não seja só educação — disse, em tom baixo. — Ou convivência.
Adrilah sorria, mas não respondeu.
Rey continuou, agora mais lenta:
— Não sei. Algumas coisas… simplesmente não têm explicação.
Adrilah assentiu sorrindo, sustentando o silêncio, como se não houvesse necessidade de completar.
— Nem tudo precisa.
Kaeron desviou o olhar por um instante, quase sorrindo.
— A madrinha sempre diz que eu pareço muito com o meu pai.
Rey voltou a encará-lo, interessada.
— E o que ela diz sobre ele?
Kaeron respondeu com naturalidade.
— Que ele era uma pessoa muito boa. Que sempre fez o que acreditava ser certo. Ela nunca falou nada ruim dele.
Adrilah manteve o olhar sereno, sem interromper.
— Para a madrinha… — continuou Kaeron, com um leve encolher de ombros — ele era perfeito.
Adrilah deixou escapar um sorriso sincero:
— Eu nunca disse isso.
Kaeron a olhou, com uma segurança silenciosa.
— Nem tudo precisa dizer.
Por um breve instante, o silêncio se estabeleceu entre eles.
Adrilah sustentou o olhar do garoto, ainda com o mesmo sorriso leve.
— Ninguém é perfeito — disse, com calma. — Mas isso nunca foi o que importou.
Kaeron pareceu satisfeito com a resposta, como se ela encerrasse a questão de forma suficiente.
Rey notou que não havia negação, nem idealização ingênua. Apenas uma separação clara entre o que foi vivido e o que permaneceu digno de ser preservado. Ela percebeu, então, com uma surpresa discreta, que Adrilah não havia permitido que a ruptura com Luke contaminasse a memória. Havia escolhido outro tipo de rigor, mais difícil, talvez mais raro.
Rey observava em silêncio a leveza da relação de Adrilah com Kaeron. Ele parecia muito bem com ela, uma relação de carinho, confiança e respeito. Pareciam felizes.
Ao fundo, o lago refletia os últimos traços de luz do dia, e por um instante, tudo pareceu repousar naquele equilíbrio delicado.
Nesse instante, Luke surgiu um pouco atrás deles, em silêncio.
Ficou imóvel, os olhos fixos em Adrilah e no menino.
Rey, entretida com o garoto, não percebeu nada.
Adrilah observava em silêncio, o olhar alternando entre os dois, sem interferir.
Depois de alguns segundos, ela falou, em um tom mais leve:
— Você estava jogando quando eu te chamei... eu não queria ter te atrapalhado...
— Está no final, mas vou voltar — disse ele, já se afastando alguns passos, mas ainda olhando para Rey. — Depois eu falo mais com você.
— Eu vou estar aqui — respondeu Rey, com a mesma calma.
Kaeron assentiu e voltou correndo, retomando o movimento leve que parecia não carregar nada além do instante.
Adrilah, no entanto, hesitou, como se algo a tivesse tocado por dentro.
Respirou fundo e olhou para o alto, envolvida por uma sensação súbita e intensa, que lhe apertou o peito. Falou com um leve sorriso, quase desorientada:
— Nossa… que curioso. Cheiro de jasmim... Faz muito tempo que não sinto esse aroma.
Então fechou os olhos, respirou fundo e sorriu, como se algo mais profundo a tivesse atingido.
Rey levou um susto e ficou paralisada.
As palavras a atravessaram como uma lembrança estranha, e só então olhou para trás.
Foi nesse momento que viu Luke, também em choque, perto de Adrilah.
Rey permaneceu imóvel, os olhos arregalados. O coração batia tão forte que parecia ecoar no parque.
Luke estava ali e, por alguma razão, Adrilah estava sentindo sua presença.
Adrilah, alheia ao que acontecia, apenas olhava para Kaeron, com um leve sorriso, imersa em pensamentos.
Rey pigarreou, buscando disfarçar o nervosismo.
— Vou pegar um pouco de água.
Adrilah olhou para ela e sorriu, como se ainda estivesse longe dali.
Luke acompanhou Rey, em silêncio.
Por alguns instantes, não disse nada. Parecia ainda tentar compreender o que acabara de acontecer.
— Rey, ela sentiu minha presença? — perguntou, contido.
Rey o encarou, ainda surpresa.
— Sim, não tenho dúvida disso. Mas… isso é possível? Ela poderia realmente sentir sua presença?
Luke demorou um instante antes de responder. Havia espanto em seu rosto, mas não apenas isso. Havia também uma comoção.
— Eu estou surpreso — disse, em voz baixa. — É muito raro alguém que não é forte na Força sentir a presença de quem já partiu. Confesso que não sei o que dizer.
Rey olhou para ele com empatia.
— É inegável que a ligação entre vocês era muito forte.
Luke baixou o olhar e assentiu, emocionado. Por um momento, pareceu procurar alguma explicação, mas nenhuma parecia suficiente.
— Não foi uma lembrança — disse, com cuidado. — Ela sentiu. Algo de mim chegou até ela.
Fez uma pausa breve, ainda abalado.
— Ela sentiu minha presença.
Rey foi tomada por uma esperança e um sentimento de alegria e perguntou baixo:
— Será que ela poderia te ver? Há algo que podemos fazer?
Luke olhou para Rey, negando com a cabeça.
— Não sei, Rey — disse bem baixo.
— Talvez... talvez seja possível — disse, depois de suspirar fundo.
Mas a voz não trazia certeza. Trazia desejo, e justamente por isso parecia mais frágil. Luke desviou o olhar, relutante, como se temesse dar forma àquilo cedo demais.
— Eu não sei se devo alimentar isso — confessou, em voz baixa. — Não sei se seria certo tentar forçar uma coisa que talvez a própria Força só tenha permitido daquela forma.
Rey permaneceu em silêncio, percebendo que havia ali mais do que prudência.
Luke respirou fundo, mas a contenção não conseguiu esconder a dor.
— Eu a amo, Rey. Mas se houver uma chance e eu não conseguir alcançá-la… se ela estiver tão perto e, ainda assim, continuar tão longe… não sei se estou preparado para perder Adrilah outra vez. Também não sei se é justo com ela, como ela vai reagir...
A confissão ficou suspensa entre os dois, simples e dolorosa.
Rey olhou para Luke, surpresa:
— E se ela quiser?
— Não sei, Rey. Talvez não seja uma boa ideia...
— Mas há uma possibilidade?
Luke a olhou fixamente:
— Sim, talvez seja possível. Há textos antigos que tratam sobre isso, quando ao menos três pessoas fortes com a Força se unem ao mesmo tempo, com um mesmo sentimento e abrem o caminho. Mas é muito difícil, pois é um evento extraordinário e inexplicável, como se fosse uma intervenção direta da Força, que supera a capacidade natural.
Rey encarou Luke, surpresa com a possibilidade.
— Então há uma chance?
— Não sei. Somos apenas dois, e eu nem estou mais no mesmo plano que você.
Rey hesitou por um instante, como se buscasse uma brecha naquela impossibilidade.
— Mas e Adrilah?
Luke baixou o olhar.
— Em teoria, ela não conta.
— Mas vocês têm uma ligação muito forte — insistiu Rey, com cautela. — Será que isso não seria suficiente?
Luke desviou o olhar para o chão coberto de folhas secas, pensativo.
— Não sei, Rey. Existem registros antigos, fragmentos dispersos que mencionam encontros assim. Eles não são descritos como técnicas, mas como ocorrências excepcionais e instáveis, dependentes de uma convergência que não pode ser produzida, apenas reconhecida quando acontece.
Ele ergueu levemente o olhar, ainda distante.
— Exige muita concentração — disse, após suspirar.
— Não basta desejar, e é um processo bem desgastante, que vai exigir muito de nós. Além disso, é necessária uma conexão forte o suficiente para servir de ponto de retorno… de constância… enquanto a travessia acontece. E força suficiente para sustentar o que, por natureza, não deveria se manter.
Fez uma breve pausa, os olhos retornando por um instante à direção onde Adrilah estava e, dessa vez, não se afastaram de imediato.
— E, ainda assim, é raro… não por falta de poder, mas porque dificilmente tudo isso existe ao mesmo tempo.
Rey sorriu:
— Se uma há chance, eu quero tentar. Eventual desgaste pode ser recuperado, mas a oportunidade de vocês se reencontrarem, não.
O silêncio que se seguiu não era de dúvida, mas de cautela.
— Mas não sei se é certo. Além disso, talvez ela nem me reconheça mais. Não tenho mais a imagem do homem que ela conheceu. Me tornei muito diferente... ela ficará decepcionada — disse, sorrindo com lamento e ironia.
Rey balançou a cabeça, sorrindo e pensativa.
— Duvido que Adrilah irá se importar com sua aparência.
Depois, respondeu com calma:
— Você é parte da Força agora. Para mim, você aparece como te reconheço. Mas para ela… será como se lembra. Talvez cada um veja o que reconhece, ou talvez você possa controlar isso… não sei. Precisamos tentar... Tenho certeza que a sua aparência não é importante para ela.
Luke sorriu e ergueu os olhos lentamente. Havia dor neles, mas também algo que já não recuava.
Rey completou, mais suave e otimista:
— Acredito que Adrilah vai ver quem ela conheceu. Se nos unirmos, isso pode ser possível.
Rey olhou para Adrilah e depois para Luke:
— Eu sinto que vocês merecem essa chance, de se verem novamente. Talvez... — Rey parou. — Talvez também seja esse o motivo de tudo.
Luke a olhou fixamente:
— Como assim?
— Eu sinto que essa jornada não foi apenas para conhecer Kaeron e revelar toda essa história. Mas para que vocês tenham a chance de se encontrar novamente. Esse pode ser o maior propósito de tudo. Vocês já perderam tanto por dúvidas, por desencontros que ... que agora pode ser o momento de tudo se acertar.
Luke permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo aquelas palavras, como se medisse o risco de acreditar nelas.
O olhar voltou-se na direção onde Adrilah estava, e ali permaneceu, firme, não mais distante e, desta vez, sem recuar.
Havia algo forte dentro dele, e dessa vez ele não iria conter, nem deixar partir.
Então voltou-se para Rey, o olhar mais seguro, e assentiu.
Não havia mais dúvidas.
Rey voltou devagar.
O jovem já estava no carro, entretido com um equipamento.
Rey se aproximou de Adrilah, a levou um pouco para longe do carro, perto de uma árvore, e perguntou em voz baixa:
— Você estaria preparada… para ver Luke?
Adrilah arqueou a sobrancelha, surpresa.
— Ver…? — repetiu rápido, quase sem perceber.
Rey sustentou o olhar dela, com calma.
— Existem relatos antigos… registros fragmentados que falam de encontros assim. São raros, instáveis — não é algo que se aprende ou se controla. Acontece quando há uma ligação forte o suficiente… e quando a Força permite.
Adrilah a fitou por um breve instante — e respondeu rápido, com firmeza:
— Sim.
Adrilah sentiu um nervosismo, suas mãos gelaram.
Rey fechou os olhos, concentrou-se na Força junto com Luke, e quando tornou a abri-los… Luke estava ali, visível.
Rey engoliu em seco, surpresa.
A imagem de Luke se tornou mais jovem, provavelmente como Adrilah o conheceu, e ainda mais nítido do que jamais o tinha visto antes.
Nesse instante, Adrilah levou um susto, recuando um passo, o olhar fixo, como se o coração tivesse parado.
Luke não disse nada. Apenas a olhava em silêncio, os olhos cheios de emoção.
Rey respirou fundo, deixou escapar um leve sorriso e, sem interromper, caminhou até o carro.
Sentou-se ao lado do menino, como quem compreende que aquele momento não lhe pertencia.
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Agora, eram apenas eles dois.
Luke deu um passo à frente, como se cada segundo fosse precioso demais. Os olhos fixos em Adrilah não deixavam dúvidas: era ela, sempre tinha sido apenas ela em sua vida.
A voz saiu baixa, quase quebrada pela emoção:
— Adrilah, como senti sua falta... Esperei tanto por esse momento… e em todo esse tempo, nunca deixei de te amar. Nem a distância, nem o tempo foram capazes de apagar isso.
Adrilah levou a mão ao rosto, atônita, os olhos se encheram de lágrimas.
Luke não desviava os olhos e falou com a voz embargada:
— Eu nunca vou esquecer da cerimônia que nos uniu, da nossa dança… daquela noite em que tudo se calou e só existíamos nós dois. Desde que você partiu, sinto muito sua falta.
E a emoção crescendo a cada palavra.
— Eu errei com você, mas me arrependi no mesmo instante. Jamais faria aquilo de novo. Sei que quebrei sua confiança, mas estava disposto a recuperá-la, a provar que te amava mais do que tudo e que, apesar de minhas falhas, nunca mais faria você sofrer. Eu daria tudo por nós, por uma chance.
Luke então baixou a cabeça, quase num gesto de rendição, e disse firme:
— Naquele dia que você foi embora, eu disse tudo o que sentia… menos o que realmente importava. Eu devia ter dito que iria embora com você. Que abriria mão de tudo para viver ao seu lado em Briskar. Porque eu sabia… no fundo eu sabia que, ao te deixar partir, não estava perdendo só você. Estava perdendo a mim mesmo.
Adrilah fechou os olhos. Não sabia o que dizer. Queria abraçá-lo, sentir de novo o calor que lembrava da última vez, mas estava paralisada.
— E agora eu entendo o que não fui capaz de ver naquele momento… que não bastava amar você como eu amava. Eu não soube o que esse amor exigia de mim… e falhei com você justamente nisso — disse Luke, a voz baixa, sem tentar se justificar.
Luke deu mais um passo à frente, devagar, os olhos fixos nela, como se também desejasse romper a distância. Então fechou os olhos, buscando forças no silêncio e concentrando-se em manter-se ali diante dela.
E assim ficaram, um diante do outro, olhos fechados, sustentando entre si o sentimento que os unia, como na última vez em que se encontraram.
Não havia mais o que prometer, nem o que pedir.
Ainda assim, estavam ali naquele instante, sem futuro, mas sem ausência.
Rey percebeu a tristeza contida naquele instante, a distância que os separava mesmo tão próximos, e, instintivamente, concentrou-se com Luke.
Ambos sentiram a resistência da Força, uma tensão que exigia precisão, como se qualquer falha pudesse desfazer aquilo antes de se completar. Aquilo pedia mais do que vontade; era sustentado por algo que atravessava tempo e forma. Ainda assim, por um instante, foi suficiente.
A Força os envolveu, e a presença de Luke ganhou forma. Contudo, sentiam que era algo que não estava destinado a permanecer por muito tempo.
Adrilah arregalou os olhos quando sentiu o abraço forte dele.
— Finalmente eu cumpro a promessa de te encontrar, não importa o tempo, disse ele emocionado.
Adrilah sorriu e o abraçou ainda mais forte, como se pudesse mantê-lo para sempre.
Depois ela se afastou apenas o suficiente para encará-lo.
— Eu... eu sempre esperei por esse momento. Eu ficava imaginando o que eu te diria quando te reencontrasse. Eu tinha tanto para falar para você, mas agora não sei mais, porque dizer que eu te amo parece pouco.
Ela tocou no rosto dele com suavidade.
— Eu queria muito que você viesse comigo por escolha, e não por pressão. Eu entendia suas convicções, mas, naquele momento, eu estava muito magoada para conversarmos. Eu não sabia qual era o meu lugar na sua vida; precisava ser forte para não me perder. Eu temia que você se arrependesse ou ficasse infeliz por largar tudo por minha causa, ao mesmo tempo em que eu não estava preparada para fazer o mesmo. Era um sentimento de angústia, de desespero…
Luke passou a mão pelos cabelos dela e sussurrou bem de perto:
— Não haveria arrependimentos com você.
Os olhos de Adrilah se encheram de lágrimas e ela não conseguia dizer mais nada.
— Você me revelou o que eu era e o que eu poderia ser. Você me trouxe paz, me trouxe alegria, me trouxe amor... E tudo foi embora com sua partida — disse Luke, ainda próximo dela, a voz baixa e contida.
Se abraçaram forte novamente.
O sol se punha atrás deles, tingindo o horizonte de dourado e vermelho, enquanto o tempo parecia ter parado apenas para aquele reencontro.
Com o rosto colado ao peito dele, Adrilah deixou escapar, a voz trêmula, carregada de tudo o que guardara por tanto tempo:
— Eu te amo. O tempo passou…, mas o que eu sinto não mudou. Eu te perdoei, mas tudo o que aconteceu depois acabou nos tirando o futuro que poderíamos ter tido. Todos os dias eu ainda sonho que você volta para mim. Sinto muito a sua falta.
E não havia dúvida alguma naquelas palavras.
Ainda nos braços dele, Adrilah ergueu o rosto. Os olhos dos dois se encontraram, e por um instante não havia dor nem distância, apenas a certeza do que sentiam, de que a promessa foi cumprida.
Luke começou a desaparecer, e Adrilah permaneceu ali, parada, olhando para o vazio.
Depois se sentou no chão e chorou.
Ficou ali até conseguir se recompor, com o pôr do sol ainda ardendo no horizonte, guardando em si o abraço e a lembrança de que, por um instante, ele realmente esteve ali.
Adrilah respirou fundo, deixando o ar escapar devagar, como se, naquele instante, organizasse dentro de si tudo o que fora vivido, tudo o que fora perdido… e tudo o que, ainda assim, permanecia.
— Foi tudo real… — murmurou. — E ainda é.
O olhar se perdeu no horizonte, onde a luz do entardecer já começava a desaparecer.
Fechou os olhos por um instante e sorriu.
Então, devagar, levou a mão ao próprio peito, como se ali ainda estivesse o eco do abraço.
Rey observava de longe, arrasada, e refletia sobre como uma única decisão errada ou um ato impensado é capaz de mudar toda uma vida.
Adrilah chegou ao carro e entrou em silêncio, enquanto os últimos traços de luz ainda resistiam no horizonte. Os olhos ainda estavam vermelhos, mas a postura permanecia firme.
Kaeron ergueu o olhar do equipamento que segurava.
— Está tudo bem?
Adrilah assentiu de imediato.
— Está, sim.
Ele a observou por um instante, como se percebesse algo diferente, mas não insistiu.
Rey respirou fundo e, depois de alguns segundos, comentou em tom calmo:
— Ainda é cedo para conversar com Kaeron sobre seus antepassados. Deixe que o tempo mostre quando será a hora.
Adrilah assentiu, olhando de relance para o menino no carro.
Um sorriso leve surgiu em seu rosto cansado.
Voltaram para a base.
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Na hora da despedida, Adrilah olhou para Rey e perguntou em voz baixa:
— Você já decidiu como vai reconstruir a Ordem Jedi?
Adrilah retirou da bolsa um pequeno volume, embalado em um tecido vermelho, e o segurou com cuidado.
— Luke me deu este livro… você gostaria de ficar com ele?
Rey olhou, surpresa.
— Sim… claro que sim.
Adrilah sorriu, mas demorou um instante antes de entregar o volume, como se ainda pesasse a decisão nas mãos.
— Então leve… é um livro especial.
Rey recebeu o livro com cuidado e passou os dedos pela capa com leveza, como quem reconhece o que aquilo representava. O material parecia antigo, bem preservado demais para o tempo que sugeria. Havia algo ali que não era comum, um cuidado, uma permanência que tornavam aquele exemplar raro.
— Ele me ajudou a entender muita coisa… sobre os Jedi, sobre a Força… e também sobre Luke.
Ergueu o olhar para Rey, com calma.
— Acho que pode te ajudar com os aprendizes.
Rey examinou o livro, que estava muito bem conservado.
— Você não acha que esse livro deveria ficar com Kaeron?
Adrilah sorriu, com naturalidade.
— Ele já leu tanto que deve saber de cor.
Fez uma pequena pausa, ainda sorrindo.
— Agora é hora de compartilhar… não de guardar.
Rey examinou o livro com mais atenção.
— Engraçado… eu não me lembro desse livro…
Adrilah achou estranho.
— Quando me deu, Luke disse que tinha outro igual na biblioteca.
Rey pensou por um instante.
— Pode ter se perdido… ou ele queria te convencer a aceitar o presente.
Adrilah sorriu levemente.
— Não sei… Luke parecia feliz em montar a biblioteca, em formar novos aprendizes. Me dar um exemplar único de um livro não parece muito sensato…
Rey a observou por um instante mais longo, ainda com o livro nas mãos, como se avaliasse não apenas o objeto, mas o que ele carregava.
— Você tem certeza de que quer me dar isso? — perguntou, em voz mais baixa. — Parece… pessoal demais.
Rey ponderou:
— Exceto se ele já acreditava que você ficaria com ele… assim o livro seria de vocês dois.
Os olhos de Adrilah se encheram de lágrimas, e ela baixou o olhar. Respirou fundo, como se precisasse reorganizar o que sentia, antes de falar.
— Talvez…, mas acredito que é melhor o livro voltar para a biblioteca, ser lido por outras pessoas.
Adrilah demorou um instante para responder, como se reorganizasse o pensamento.
— Luke não me deu esse livro para ser guardado.
Ergueu o olhar para Rey, com serenidade.
— Ele acreditava que o conhecimento devia ser compartilhado, ser passado adiante.
E prosseguiu:
— Eu acredito na força da oralidade, que faz o conhecimento ser transmitido entre as pessoas e mantém viva a lembrança do que somos e do que fomos. Mas a escrita é o que consolida, o que evita que o tempo apague. É por meio dela que preservamos nossa memória de maneira mais fiel.
Fez uma pausa.
— Rey, conheça os códigos, mas não se prenda a eles. Muitas vezes, algo precisa ser abandonado para que você avance. E eu te peço que não cometa os mesmos erros na reconstrução da Ordem Jedi.
Adrilah colocou a mão no braço de Rey:
— A Força não pertence a uma “Ordem”, nem a uma estrutura burocrática. Ensine seus aprendizes a senti-la, não a temê-la. Recrie algo novo. Honre o que veio antes, mas não repita seus erros. Que sejam guardiões da vida e da paz, não prisioneiros de regras.
Rey abraçou Adrilah, que prosseguiu:
— Eu não sei o que se passou com Luke, mas sinto que ele sofreu muito. Por isso, te peço que ensine o que realmente importa. Conhecer o passado é importante para evitar cometer os mesmos erros. Se você se prender apenas à tradição, o ensinamento pode se tornar obsoleto, mas apostar apenas na inovação, perderá a estabilidade e a previsibilidade. Sabedoria é identificar o que é melhor. Espero que você encontre o equilíbrio.
Rey apertou o livro contra o peito, emocionada.
Adrilah sorriu outra vez.
— Saiba que será sempre bem-vinda aqui. Pode voltar quando quiser — disse com doçura.
Adrilah hesitou por um instante, como se avaliasse algo mais amplo do que aquela despedida. Então continuou, com a mesma serenidade:
— Se um dia Kaeron tiver que seguir um caminho que o leve para longe de Briskar… acredito que a própria Força vai mostrar isso a ele.
Sustentou o olhar de Rey, sem vacilar.
— Eu sempre vou apoiar as escolhas dele.
Houve uma pausa breve, quase imperceptível.
— Se esse for o destino… — continuou, com mais cuidado —, se ele carregar algo do pai…
O olhar vacilou por um instante, não de dúvida, mas de consciência do que aquilo poderia significar.
— que seja ao seu lado, guiado por você. Eu confio em você.
Rey permaneceu em silêncio por um instante, visivelmente tocada.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela não tentou disfarçar.
Deu um passo à frente e abraçou Adrilah com força.
Adrilah retribuiu o abraço com a mesma firmeza tranquila.
— E quero que saiba, também, que agora eu entendo, agora eu sei, que vivi o melhor momento da minha vida quando estive com Luke. Muito obrigada por isso.
Rey a abraçou forte, sentindo nas palavras de Adrilah a ternura de quem finalmente havia feito as pazes com o passado.
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Rey estava de partida, de volta para casa.
A rampa da nave se fechou com um silvo suave, isolando-a do mundo tranquilo de Briskar Eiss. Diante dos controles, ela não iniciou a sequência de ignição imediatamente. Em vez disso, ficou parada, observando da cabine a paisagem serena que se estendia diante dela.
BB-8 girou suavemente ao lado do assento do copiloto, seus sensores emitindo um brilho ligeiramente mais nítido do que Rey lembrava.
Talvez fosse apenas impressão… ou talvez o pequeno droide já estivesse aproveitando algumas das melhorias que Briskar Eiss podia oferecer.
Rey sorriu de leve e passou a mão sobre o topo metálico do droide.
— Eu sei… — disse em voz baixa. — Também estou tentando entender tudo isso.
O ar na cabine pareceu vibrar sutilmente, e uma luminosidade azulada e suave refletiu-se nos painéis de comando. Rey virou-se lentamente. Lá estava ele, Luke Skywalker, com um semblante de paz.
— Você fez o que eu não pude, Rey — disse Luke, sua voz soando como um eco caloroso na Força. — Obrigado por tudo. Por não desistir desta história.
Rey sentiu o peito aquecer.
— Ele está seguro. Adrilah prometeu mantê-lo assim.
Luke assentiu, mas seu olhar tornou-se profundo e protetor.
— O anonimato é o único escudo que ele possui agora. Eu vi o que o peso do legado de minha família causou... Não deixe que ele destrua meu filho, Rey. Deixe que ele escolha quem quer ser, longe das sombras do passado.
Com um último aceno de gratidão, a imagem de Luke desvaneceu, mas a sensação de sua presença permaneceu. Não havia tristeza no coração de Rey, nem a agitação de uma missão inacabada.
Em seu lugar, uma paz profunda se instalou, como a poeira assentando após uma longa tempestade.
Luke estava, finalmente, em paz.
Ela pensou em Jade, cujo amor se vestiu de ausência para se tornar proteção.
Pensou em Adrilah, cujo amor foi tão forte que pôde abrigar e proteger o filho da outra com o homem que amava, sem julgamentos, mantendo a palavra.
Pensou em Luke, cujo amor sobreviveu à distância, ao arrependimento e até mesmo à morte.
E então, Rey entendeu.
A lição final não estava em encontrar o menino, mas naquela história entrelaçada de amor, dor e sacrifício.
Ela era agora a herdeira não de um nome ou um título, mas de suas lições difíceis e preciosas. Também poderia ser a quebra do ciclo.
O início de uma nova e diferente jornada.
Um sorriso calmo se formou em seu rosto.
Olhou pela última vez para o horizonte, acionou os motores e sussurrou para si mesma, selando a história:
— Valeu a pena.
“FIM”
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Pós Créditos (Cliffhanger)
A nave elevou-se suavemente do solo de Briskar Eiss e começou a ganhar altitude.
A viagem de volta seria longa e novamente cheia de desafios.
Rey ajustou os parâmetros da viagem.
Notou que na volta, o trajeto parecia mais claro, indicando o momento da travessia e os pontos de apoio. Achou aquilo estranho, diferente da ida.
BB-8 girou animado ao lado do assento do copiloto, emitindo uma sequência curiosa de bipes enquanto observava o planeta desaparecer lentamente pelo visor.
Rey sorriu de leve, reconhecendo o tom.
— Você quer saber se eles estão juntos?
BB-8 respondeu com um assobio mais insistente, quase inquisitivo.
Rey soltou um riso baixo, balançando levemente a cabeça.
— Você anda curioso demais… — comentou, com leveza. — Será que foi aquele upgrade?
BB-8 girou o corpo com mais energia, emitindo um bip que soava quase defensivo.
Rey ergueu as sobrancelhas, divertida.
— Ei, eu só estou perguntando…
O droide respondeu com um som mais agudo, como se se justificasse.
Rey deixou escapar um sorriso mais aberto antes de voltar o olhar para o horizonte, pensativa por um instante.
— Eu não sei ao certo que lugar Adrilah e Caleb ocupam na vida um do outro. Mas ainda cuidam e protegem Kaeron… e, de algum modo, parecem ter encontrado o próprio equilíbrio.
BB-8 emitiu um som mais suave, como se processasse a resposta.
Rey recostou-se na poltrona e fechou os olhos por um instante.
— Nem tudo precisa ser definido… — acrescentou, quase para si mesma.
BB-8 soltou um bip mais contido, ainda curioso, mas agora menos insistente.
Pela primeira vez desde que partira, Rey sentia-se em paz, mas ao mesmo tempo, sentia algo estranho também, diferente...
BB-8 soltou um bip animado, claramente satisfeito por estarem voltando.
Rey abriu os olhos e olhou para ele.
— Eu sei… — disse com suavidade. — Também estou feliz por estarmos indo para casa. Mas você sabe que é um trajeto longo e difícil.
Então veio a sensação.
Breve.
Fria.
Como se algo a observasse.
Rey abriu os olhos de imediato e olhou ao redor da cabine.
BB-8 girou o corpo rapidamente, seus sensores piscando enquanto fazia uma varredura no interior da nave.
Os painéis estavam estáveis.
Os sensores silenciosos.
Nada.
O droide soltou um pequeno assobio confuso.
Rey respirou fundo e voltou a relaxar no assento.
— Está tudo bem, amigo… — disse, olhando para o espaço à frente.
— Vamos para casa.
A nave continuou subindo, deixando Briskar Eiss cada vez menor no visor.
O que Rey não viu foi a pequena luz vermelha pulsando nas sombras, escondida sob o painel de fiação que ela não havia inspecionado antes da decolagem.
BB-8 também não percebeu.
Em algum lugar distante, um terminal recebeu o sinal.
Uma única mensagem apareceu na tela em tom vermelho: Localização confirmada.
