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Árvore

Summary:

Danny quer dar um presente a Clockwork. Mas do que o Mestre do Tempo gostaria?

Notes:

Work Text:

Clockwork andava chamando Danny para ajudar com mais frequência ultimamente. Os problemas nunca eram muito difíceis de resolver, pelo menos depois que a viagem no tempo ficava no passado. Raramente levava mais do que algumas horas para rastrear o que quer que estivesse perdido, e pelo menos metade dos fantasmas que ele resgatava queria voltar. A maioria dos lugares para onde era enviado tinha idiomas que ele conhecia, ou estava aprendendo. Danny tinha a sensação de que Clockwork estava, aos poucos, acostumando-o com a ideia de interagir com culturas antigas e históricas. Para que, talvez, algum dia, ele pudesse fazer algo a mais pelo fantasma mais velho.

​Danny estava se acostumando com muitas coisas ultimamente.

​Por exemplo, ele estava ficando cada vez melhor em adivinhar quando Clockwork estava prestes a aparecer. Ele começou a ter uma sensação, um instante antes de Clockwork parar o tempo. Não era o seu Sentido Fantasma, mas também não era não ser.

​Sam achava que ele poderia estar desenvolvendo um sexto (sétimo, oitavo, nono, décimo...) sentido. Algum tipo de habilidade premonitória. A suspeita de Danny, no entanto, era de que Clockwork estava fazendo aquilo de propósito. Que estava se revelando parcialmente para Danny, para que ele não tomasse um susto tão grande quando um medalhão do tempo batesse contra o seu peito.

​Além disso, Danny tinha começado a chamar Clockwork de “Vovô”. Tinha começado como uma piada, um trocadilho, na verdade. O salto metafórico era fácil e era um apelido bobo de que Clockwork parecia gostar. Mas então, Danny começou a ficar com preguiça ou, mais precisamente, exausto no final das missões, e um escorregão virou dois, três, quatro...

​Danny também estava se familiarizando gradualmente com o Agora Eterno. Clockwork frequentemente permitia, e até o incentivava, a explorar o esconderijo enquanto ele se recuperava de uma missão ou esperava que Clockwork libertasse um fantasma capturado. Danny tinha apenas arranhado a superfície. O Agora Eterno era facilmente do tamanho de todas as mansões do Vlad juntas.

​Por isso, Danny estava sempre encontrando coisas que o surpreendiam. Como a biblioteca que quase poderia rivalizar com a do Escritor Fantasma, ou o quarto ocupado pelo que não parecia nada além de um vasto e multidimensional jogo de xadrez de várias cores, todo entrelaçado.

​Hoje, até agora, Danny havia encontrado a cozinha — que ele já tinha visto antes, mas que sempre parecia estar em um lugar diferente — e uma sala que continha apenas um único espelho de corpo inteiro. O espelho o fez se sentir estranho. Ansioso. Pensando bem, Danny frequentemente se sentia ansioso. Ainda assim, ele não conseguia se livrar da sensação de que o espelho não o havia refletido corretamente.

​Decidiu se afastar o máximo possível daquela sala antes de abrir outra porta.

​A próxima porta que abriu dava para o lado de fora, em um pátio fechado. Isso era surpreendente por si só. Danny não fazia ideia de que a torre tinha uma área assim. Ele deu um passo para fora, hesitante, mas agradavelmente surpreso. Até aquele momento, Danny havia encontrado pouquíssima vida (pós-vida?) vegetal na Zona Fantasma.

​O pátio era circular e dividido em treze partes separadas por passarelas. Doze delas contornavam as bordas, e a décima terceira ficava no centro. As doze partes externas correspondiam vagamente aos meses do ano. Em duas à sua esquerda estava nevando, enquanto Danny podia sentir o calor irradiando dos canteiros floridos à sua direita. Onde ele estava de pé, as plantas davam frutos e nozes.

​No centro, havia uma árvore imensa, abraçada por videiras. Alguns dos galhos estavam floridos. Alguns estavam nus. Outros carregavam folhas e frutos, enquanto outros os deixavam cair. Danny caminhou até ela, curioso. Nem todos os frutos pareciam iguais. De fato, ele viu maçãs penduradas ao lado de cerejas.

​Assim que se viu sob os galhos abertos da árvore, ele deu um leve impulso para sair do chão. Uma análise mais próxima dos galhos mostrava que eles haviam sido enxertados ali; a maioria das emendas era tão velha que se tornava quase invisível.

​Danny colheu um pêssego de um dos galhos de verão e então se acomodou em um dos galhos nus. Àquela altura, ele já se sentia confortável o suficiente no Agora Eterno e com Clockwork para fazer aquilo sem preocupações.

​Ele não sabia que Clockwork gostava de jardinagem. Aquilo lhe deu uma ideia.


 

​Danny havia pedido a ajuda da Sam. Ela entendia muito de plantas, bem mais do que Danny, embora ele estivesse se esforçando para pelo menos aprender o que era comestível.

​Ele estava fazendo um monte de missões com viagem no tempo ultimamente. As chances de acabar preso em algum lugar sem comida eram grandes. Era assim que a sua sorte funcionava, por mais que Clockwork não fizesse isso com ele de propósito.

​Sam, durante o processo de montagem e manutenção de sua própria estufa, havia pesquisado bastante sobre plantas raras, carnívoras, bonitas ou de alguma forma legais. O que incluía árvores frutíferas.

​Depois que Danny explicou o que queria fazer, Sam criou uma lista de possíveis árvores. O garoto passou um bom tempo analisando as opções. Algumas ele descartou de cara por serem caras demais. A maior parte da mesada que Danny, Jazz, Sam e Tucker juntavam era gasta com coisas como kits de primeiros socorros e roupas de reposição.

​Algumas eram, francamente, um pouco embaraçosas para comprar, fosse por causa dos nomes ou pelos babados e flores cor-de-rosa.

(Danny nem sempre tinha vergonha na cara, mas quando tinha, era por coisas muito idiotas.)

​Isso deixou apenas algumas opções. Depois de rolar muito na cama resmungando, de uma briga com uma doninha fantasma gigante e de um encontro com a Tia da Cantina que começou como uma luta mas se transformou nela tentando alimentá-lo com sanduíches de presunto suspeitosamente verdes, ele se decidiu por uma linda muda de macieira. Era uma daquelas variedades geneticamente modificadas, com a garantia de ser azedinha e crocante. Danny ficou surpreso no começo, quando Sam a recomendou, mas quando expressou sua surpresa, ela embarcou num longo discurso sobre “arroz dourado” e desnutrição que ele praticamente desligou e ignorou.

(Ele costumava se sentir mal por fazer aquilo, mas se não o fizesse, ficaria maluco. As Obsessões Fantasmas não tinham limites espaciais. Se não se distanciasse mentalmente de problemas assim, tentaria resolvê-los, e o fato era que ele era apenas uma pessoa. Ele não conseguia resolver todos. Clockwork disse que isso seria um problema menor à medida que ele tivesse mais controle sobre as coisas, mas, por enquanto, Sam entendia. Ela simplesmente não conseguia se controlar às vezes. Assim como Danny.)

​No entanto, na primeira vez que ele comprou uma, ela foi destruída por Skulker antes mesmo que ele chegasse em casa. Na segunda vez, foi devorada por um enxame de cupins fantasmas (às vezes, Danny se perguntava se o universo não estava armando contra ele. Ele sequer tinha ouvido falar de cupins fantasmas antes). Depois, ele teve que esperar um mês, porque árvores frutíferas eram estranhamente caras e ele estava sem um tostão.

​Assim que comprou a terceira árvore, a missão virou quase uma mini-Obsessão, e ele ficou tão arisco e protetor em relação a ela que a maioria dos outros fantasmas mantinha distância. Ele entregaria aquela árvore para Clockwork, de um jeito ou de outro.

​Havia alguns fantasmas, porém, que não tinham recebido o aviso.

​Danny os sentiu antes de vê-los, e congelou. Aquelas não eram eco-assinaturas amigáveis, e eram fortes. Não era uma boa combinação. Ele se virou de supetão, tentando localizar a ameaça. Nessas circunstâncias, preferia muito mais fugir a lutar. Ele não queria perder a árvore de novo, e definitivamente não queria confusão. Se fosse para proteger alguém, era uma coisa, mas ele estava sozinho no meio da Zona Fantasma. O objetivo ali era a autopreservação.

​Então ele os viu. Um deles, pelo menos. Um Observante. Haveria outro. Danny podia contar nos dedos de uma mão as vezes em que encontrou os Observantes, mas eles sempre andavam em duplas.

​Talvez eles não o tivessem visto ainda. Talvez ele pudesse mergulhar na invisibilidade, na mais verdadeira e completa invisibilidade. Talvez conseguisse escapar de fininho.

​Essa esperança foi esmagada quando o fantasma ocular olhou diretamente para ele e anunciou em alto e bom som:

​— Ora, se não é o bichinho de estimação do Clockwork.

​Danny se encolheu, mas não disse nada. Ele sabia que não devia tratar um Observante da mesma forma que trataria um fantasma comum que o estivesse insultando daquele jeito. Os Observantes eram poderosos e perigosos. Sua organização, mais ainda. Ele sabia muito bem que eles tinham tentado forçar Clockwork a matá-lo. Sabia que eles tentariam matá-lo de novo se tivessem uma desculpa.

​Ele recuou, mantendo os olhos na ameaça, com os braços enrolados em volta da planta. Ele a abraçava como um cobertor de segurança, mas também estava pronto para abandoná-la em uma fração de segundo. No geral, ele preferia viver. Sempre poderia conseguir outra árvore. Quanto à sua vida, bem, ele já tinha ganhado tantas segundas chances. Duvidava que o universo fosse lhe dar mais uma.

​— Parece um pouco distraído, não acha? — disse uma voz muito perto de Danny.

​Ele deu um sobressalto, recuando da voz, tentando colocar distância entre ela e si mesmo. Ele não podia revidar, não podia retaliar, relembrou a si mesmo. Não podia ceder aos seus reflexos. Tinha que procurar uma brecha para escapar.

​— Parece, não é? — zombou o primeiro. — Nem sinal do poder que derrotou Pariah Dark.

​— Nem sinal daquela inteligência tão famosa.

​— Eu acho que ele deve estar doentinho.

​— Acredito que você tenha razão.

​Danny não gostou do rumo daquela conversa. Ele redobrou seus esforços para encontrar uma saída. Suspeitava que um terceiro Observante estivesse à espreita por ali, e não havia realmente nada ao redor que pudesse servir de cobertura contra os que ele conseguia ver. Duvidava que seus escudos surtissem muito efeito.

​— E então, o que você faz com bichinhos de estimação que estão tão doentes?

​— Ora, lamentavelmente, você os sacrifica.

​Nossa, Danny definitivamente não estava gostando daquilo. Talvez se ele voasse em uma direção bem esquisita e imprevisível, conseguisse confundi-los?

​— Você não acha que Clockwork poderia até nos agradecer por esse serviço?

​— Eu acho que sim.

​Mais rápido do que Danny pôde piscar, explosões ectoplasmáticas maciças surgiram nas mãos de cada um deles. Ele também pôde sentir o formigamento revelador de um acúmulo de ecoenergia atrás de si. Sem opções, ele voou direto para cima, apenas para dar de cara com um Observante esperando naquela mesma direção.

​— Parem! — gritou Danny, em pânico, sem realmente esperar que aquilo tivesse qualquer efeito.

​Surpreendentemente, teve. Os Observantes hesitaram, fizeram uma pausa — apenas o suficiente para que Danny desviasse do ataque deles. Ele aproveitou a pequena vantagem e fugiu o mais rápido que pôde.


 

​Eventualmente, ele conseguiu chegar ao Agora Eterno, seguindo aquele puxão esquisito no seu núcleo. Estava um pouco nervoso. Geralmente, ele não ia até lá a menos que fosse convidado. Ainda assim, as portas se abriram de par em par, e Danny entrou.

​Clockwork o esperava. Danny não era muito bom em ler o misterioso fantasma ancião, mas achou que Clockwork parecia satisfeito em vê-lo. O fantasma sorria, e não de um jeito “eu-sei-tudo-sou-tão-misterioso” como ele costumava sorrir. Corando levemente, Danny ofereceu a planta.

​— Obrigado, Daniel — disse Clockwork, bagunçando o cabelo branco como a neve de Danny e pegando a árvore. Ele mudou da forma adulta para a infantil. — Vamos colocar isso em um lugar adequado no jardim, certo?

​Eles tomaram um caminho muito mais direto para o jardim do que o que Danny havia feito antes. Era de se esperar. Aquele era o esconderijo de Clockwork, ele saberia como andar por ali.

​Saíram no pequeno pátio, e Clockwork, na forma idosa, voou até a árvore central. Danny o seguiu de perto, sem nunca chegar a encostar no fantasma mais velho.

​— Você sabe o que é um enxerto, Daniel?

​— Mais ou menos — respondeu Danny. — A Sam fala sobre isso às vezes. É quando você pega um galho de uma árvore, corta, e aí pega outra árvore, faz um corte nela, junta os cortes, prende com fita e o galho passa a crescer nela. Como um membro transplantado, só que a árvore não precisa tomar, hã, remédio contra rejeição.

​— Muito bem — elogiou Clockwork. — Então, você sabe o que eu vou fazer?

​— Você vai cortá-la para poder enxertá-la na árvore.

​— Muito bem — repetiu Clockwork. — Segure isso, por favor — pediu ele, devolvendo a muda a Danny. Ele criou nas mãos, agora vazias, uma tesoura de jardim verde e, um momento depois, cortou a pequena árvore de forma limpa, perto da base. Danny mordeu o lábio. Ele sabia o que ia acontecer, mas ainda parecia estranho. Clockwork então cortou um pedaço da árvore grande. Ele pegou o galhinho com Danny e o segurou contra o tronco. — Observe com atenção.

​Danny flutuou para mais perto.

​A melhor forma como Danny poderia descrever o que Clockwork fez a seguir era dizer que ele “beliscou” o tempo em volta do enxerto. Teve a sensação de que Clockwork estava... exagerando o movimento, só para que Danny pudesse sentir. Era uma sensação muito esquisita.

​Os galhos enxertados cresceram juntos enquanto Danny assistia, a cicatriz diminuindo mais e mais.

​— Uau — murmurou Danny.

​— Eu vou te ensinar como fazer isso — anunciou Clockwork.

​— Sério? — perguntou Danny, com os olhos brilhando de empolgação. Havia tantas coisas que ele poderia fazer com um poder daqueles.

​— Você deve me prometer, no entanto, não usar isso em humanos, fantasmas ou seres vivos e inteligentes, até que eu diga que você pode.

​— Ah — disse Danny, com a empolgação apenas um pouquinho murcha. — Tá bom. Eu prometo. Por quê?

​— Nem todas as coisas aceitam isso tão bem quanto as árvores. Nos humanos, isso poderia causar gangrena. Eu sei que você não quer descobrir isso da pior maneira.

​— Não — concordou Danny. — Obrigado, Vovô.

​— Obrigado a você, Daniel, pelo belo presente. — Ele passou o braço pelos ombros do garoto. Danny se encostou ao lado de Clockwork, com seu núcleo começando a ronronar. — Aceita um biscoito?

​— Aceito, por favor.

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