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I.
Ali estavam todos eles. Os maus atores de seu casamento malfadado. Faltava Joffrey. Laenor devia estar pensando a mesma coisa, porque passada a animação inicial em reencontrar a irmã e conhecer as sobrinhas, seu rosto ficou anormalmente tenso, evitando olhar na direção de Criston Cole. O estômago da princesa queimou dolorosamente. Havia no ar inúmeras tensões, palavras não ditas, ressentimentos infeccionados, quase uma gangrena havia se formado naqueles anos de separação. Mas era a hora de aproveitar finalmente a dura lição ensinada por seu pai, havia anos. A aparência se sobrepõe à verdade, pelo menos na corte.
Alisou uma ruga invisível da saia de seu vestido preto. Há uma semana ela escolhera o guarda-roupa adequado para atravessar aquela provação com a inestimável ajuda de Lady Elinda Massey. Elinda e Harwin eram os únicos que sabiam como ela se sentia, sem que precisasse dizer uma única palavra. Os vestidos estavam separados, limpos e bem passados. Predominavam o preto e o azul celeste da casa da senhora sua mãe, a falecida Rainha Aemma Arryn. Não usaria nenhuma peça vermelha, nem vestiria nada nas cores da casa de Laenor. Nunca o havia feito, não o faria agora. Esqueceria temporariamente os decotes ousados e as mangas curtas. A proximidade dele depois de todos esses anos fazia com que desconfiasse de seu próprio corpo. Não tinha sido atraente o bastante quando era jovem e esbelta, não seria agora que ela era mãe de dois. A princesa repassava em silêncio um repertório de sofrimentos esquecidos. Tinha enterrado o próprio coração vivo e viver sem ele era quase uma segunda natureza agora.
Se pudesse passaria esses dias dolorosos dentro de algum quarto sem janelas ou sendo representada pelo último retrato que seu pai mandara fazer. Um retrato de seu casamento falso e de sua falsa alegria. Era um esforço imenso, mas mesmo dando o máximo de si, nunca era bom o bastante. Vivia sob o escrutínio de seu pai, de sua madrasta, de seus parentes e a todos desagradava de alguma maneira.
Sentia-se insegura. A chegada deles abalara o amor que sentia por si mesma. Tinha dois filhos pequenos. Sentia um orgulho feroz daquelas crianças. O amor que sentia também era feroz e incomensurável. Não importava a devastação que as pessoas viam em seu corpo depois da maternidade. Seus seios ficaram grandes e pesados, a cintura estava mais grossa. As mudanças em seu corpo nunca a incomodaram. Rhaenyra amava verdadeiramente e sem medidas. Os meninos entregavam mais amor em retribuição. Era por eles que ela levantava todos os dias e conseguia achar um sorriso para colocar em seu rosto. O rosto, os cabelos e as mãos continuavam impecáveis como sempre. Antes ela era o Deleite do Reino, mas esse tempo passou e as expectativas pesavam sobre seus ombros; pesavam como uma carroça cheia esgotando um burro de carga.
II.
Só desejava que aquilo passasse rápido, não sabia o que sentiria ao vê-los casados, pais e felizes. Ela viu os dois dançando em seu casamento, mas não maldou, não conseguiu sequer imaginar a semente da trama que corria pelas suas costas. Percebia o quanto devia ter soado ridícula. Ela teria ido para Pedra do Dragão e ligado sua vida à dele, deixando tudo para trás e tendo as estrelas como testemunhas. Mas sem o trono ela era apenas um estorvo.
Ela era uma tola. Todos os apaixonados são sublimes e ridículos ao mesmo tempo. Ele não estava apaixonado. Foi fácil virar-lhe as costas mais uma vez. Laena e Vhagar partiram atrás do cavaleiro e de seu dragão, sem sequer ouvir o irmão fazer os votos. A jovem Velaryon já tinha os olhos postos no príncipe guerreiro. A moça tinha herdado do pai o senso de oportunidade. Sobraram os noivos: um Laenor despedaçado pela morte de Joffrey e ela destruída por dentro, sem poder derramar uma lágrima. Sem poder derramar uma lágrima. Parecer forte o tempo todo era extenuante.
Quando a notícia da paixão avassaladora do príncipe Daemon por Laena Velaryon chegou à Fortaleza Vermelha, Viserys olhou bem dentro dos olhos da filha mas não deu uma só palavra. Não é decente pisotear os caídos. Os detalhes foram se amontoando, o duelo que culminou com a morte do noivo, as viagens exóticas do casal, o nascimento das gêmeas há quatro anos. A verdadeira paixão celebrada pelos poetas. Alicent gostava de enfatizar a quantidade de inspiração que aquele casal fornecia aos bardos. Ela repassava os detalhes mais emocionantes em sua presença. O rei mandava um inequívoco olhar de censura, mas a rainha não deixava passar a oportunidade de narrar seu conto favorito. A paixão, a devoção do príncipe regenerado por sua jovem esposa. A esposa de sua escolha. Valiriana, formosa, amazona do dragão de Visenya e filha da casa mais rica do reino. Corlys Velaryon estava inflado de orgulho. Rhaenys não dizia nada de muito exaltado, mas estava emocionada com as netas.
Filhos de minha filha, meu netos são...
Rhaenys podia ser requintadamente cruel. Há anos Rhaenyra ouvia os sussurros. Eram espinhos que cresciam pelas suas costas. Como se coubesse a ela a exclusiva responsabilidade por fazer o casamento dar certo. Mudar a essência de Laenor, produzir filhos Velaryons, contentar o pai, apagar-se a ponto de que Alicent dela se esquecesse. Mas era preciso suportar. Pelos seus filhos, Jace e Luke. E pelo reino. O reino também era seu filho, o filho mais antigo e o mais exigente...
Apesar do aparente alheamento, Viserys não alimentava o assunto, deixava-o morrer como uma fogueira fraca. Os Hightowers, os Velaryons, os cortesãos, todos achavam que ele ainda se ressentia do irmão. Rhaenyra percebia a verdade e lhe era agradecida.
III.
O casal estava há uma lua e meia em Porto Real. A princesa evitava a proximidade deles laboriosamente. Mas eles sempre davam um jeito de ficar perto dela, de interagirem, de serem vistos publicamente juntos. Um sorriso artificial era seu único recurso. No início ele pouco falava com ela, ficando toda a aparência de amizade a cargo da esposa. A princesa custou a imaginar que aquele esforço de socialização da parte da cunhada fosse algo mais que ingenuidade. Era quase impossível que ela não soubesse...
Todos que tinham ouvido a história do príncipe e sua sobrinha sendo apanhados por Arryk Cargyll ficavam surpresos com a ligeireza com que o trio parecia ter superado o episódio escandaloso. Conforme a permanência da família se prolongava, os boatos vicejavam pelas Terras da Coroa. Atribuíam uma moral frouxa à princesa. Nada estava tão ruim que não pudesse piorar. Aqueles meninos de cachos escuros eram a certeza de sua imoralidade. Começaram as fofocas sobre as atividades do trio. Houve quem jurasse que o príncipe compartilhava o leito com a esposa e a sobrinha ao mesmo tempo. As más línguas diziam que o irmão do rei procurava descobrir como se sentia o Conquistador com suas esposas. A família da rainha Alicent se regozijava com essas narrativas eróticas que provavam a inaptidão de uma mulher para governar, ainda mais uma mulher dissoluta.
A princesa andava acabrunhada. Ela pediu e obteve a permissão do pai para regressar a Pedra do Dragão com os filhos. Laenor poderia ficar com a irmã e o cunhado e com eles seguir para Derivamarca. O casal estava deixando Rhaenyra desconfortável. Mais desconfortável do que de hábito. O olhar dele não a deixava. Seu olhar mudava como muda a lua. Em certo momento mirava a todos do alto, como que provocando alguém a vir desafiá-lo; quando ela se forçava a encará-lo, deparava com um olhar humilde de cão batido.
Lady Laena procurava reatar a amizade da infância. Por uma meia dúzia de vezes apareceu do nada, sem convite e acompanhou Rhaenyra em seu passeio solitário matinal pelos ares. A grande sombra lenta de Vhagar pairava sobre a princesa e sua montaria. Ora, aquele passeio curto era o seu momento de sanidade. Era a única parte do dia em que não precisava fingir ser indiferente. Mesmo perto de seus filhos era obrigada a dizer que tudo ia bem. Atualmente só conseguia esquecer sua miséria nas costas de Syrax.
“Preciso ficar sozinha, Lady Laena.”
A Velaryon arregalava os belos olhos verdes, avançava indiferente desconsiderando a irritação da princesa e tomava seu braço, forjando uma intimidade edificada sobre a areia.
“Não é bom ficar solitária, prima. É importante que sejamos amigas.”
Na segunda vez em que ela falou isso, Rhaenyra desvencilhou o braço, firme mas sem rudeza e olhou-a direto nos olhos.
“É importante para quem?”
Laena Velaryon apertou os lábios. Finalmente optou pelo silêncio. Rhaenyra deu-lhe as costas, subiu no cavalo e regressou à Fortaleza. Desistiu do passeio porque temia explodir. Syrax arrastava as garras pela terra e bufava inconformada no Poço dos Dragões.
IV.
“Você vai mesmo para Pedra do Dragão, princesa?”
Isso foi dito em um tom baixo e suplicante que ela jamais ouviu sair da boca do tio. Ela não se deu ao trabalho de responder. Segurou as saias e tentou sair dali. Não queria olhar para ele, quanto mais falar. Estavam se medindo há duas luas. Daemon não sabia bem o que esperava, mas certamente não era aquela frieza. Em outro tempo ele havia inspirado amor incondicional em sua sobrinha. Esse tempo passou, mas ele não conseguia aceitar a indiferença que parecia sair dela com tanta facilidade. Ele travou seu braço. Foi como se o ferro quente a tocasse. Como ele ousava?
“Solte o meu braço, não permito que me toque.”- ela rosnou em Comum.
“Pela Quatorze Chamas, Rhaenyra! Precisamos conversar...”
“Engano seu, Príncipe Daemon. Afaste-se. Eu mal consigo olhar para você...”- Seus olhos eram duas poças de ressentimento, mas ele não conseguia aceitar ser dispensado com tanto desprezo. Na frente das pessoas ela se segurou, mas a sós ela parecia prestes a queimar.
“Somos família, princesa.”
“Não somos nada. Deixe-me passar...”
IV.
“Se me der mais algum tempo, eu sei que vou conseguir.”
A expressão de Laena era a de uma pessoa determinada.
“Deixe Rhaenyra quieta, Laena. Seja lá o que você pensa que está fazendo, só está piorando tudo.”
Ela era mansa, mas obstinada. Ela não conhecia bem sua sobrinha. Havia pouca gente que pudesse forçar Rhaenyra a fazer o que não queria. E certamente Laena não era uma dessas pessoas. O que saberia sua esposa da fúria de um dragão irado?
“Não, marido. Ela vai acabar cedendo. Precisamos voltar definitivamente para casa. Quero que meus próximos filhos nasçam perto da minha família. Não posso ver você virando uma mera casca do que foi. O homem com quem me casei era mais do que isso.”
Daemon sentiu-se validado pela compreensão da esposa. Ela nunca o confrontava. Apenas virava os olhos para o outro lado e de seus lábios não saía a menor recriminação. Em Pentos a vida de Laena não era das melhores. Tinha conforto, seu dragão e as filhas. Ele parecia procurar fora de casa material para preencher o vazio que sentia dentro de si. Ele era discreto, tratava a esposa com grande consideração. Não tinha intimidades com as servas, mas ela sentia o cheiro de outras mulheres em sua pele e cabelos. Quando voltassem a Westeros, ele poderia se resolver em segredo com a sobrinha. Seria como espremer o pus de uma ferida que ameaçava matá-los todos. Se esse era o preço necessário para que ele fosse feliz, ela não se incomodaria em pagar. O importante era que ele era casado com ela, eles tinham companheirismo de verdade, eram pais de duas lindas filhas e em breve de outras crianças. Ela sabia que ele sonhava com um menino. Para Rhaenyra seria melhor estar com o tio do que parindo filhos de cabelos escuros e envergonhando o pobre Laenor.
“Eu a conheço. Ela nunca vai se contentar com sobras. Rhaenyra não nasceu para viver nas sombras.”
A esposa pareceu não ouvir. Laena só via e ouvia o que melhor contribuía para sua tranquilidade. Deu um sorriso confiante.
“Ela tem vivido assim por um longo tempo. Se ela amou um homem como você, como poderia se contentar com um obscuro cavaleiro das Terras Fluviais?”
Daemon Targaryen havia feito essa pergunta a si mesmo durante anos. Ela engravidou depois de Laena. Ela talvez tivesse esperado. Harwin Strong estava à espreita. Como não estaria? Ela era a mulher mais linda dos Sete Reinos.
V.
Ele estava no cais olhando para ela, sem ousar se aproximar. Sua sobrinha vestia um rico casaco vermelho guarnecido de peles negras. O vento agitava sua longa trança. Ela era uma mulher Targaryen perfeita, bela e altiva. Ela seguiria de navio com os filhos e seus filhotes, escoltada por Syrax até Pedra do Dragão. Naquele momento Caraxes tentou iniciar uma brincadeira com a montaria da princesa em pleno céu. A fêmea dourada soltou uma coluna de fogo como resposta e, apesar de seu temperamento belicoso, Caraxes não revidou.
A princesa deixou os dois meninos com Lady Elinda e foi ao encontro do tio.
“Não precisava deixar a Fortaleza, princesa. Nós iremos para Derivamarca na próxima lua. Seu pai nos convidou para ficar. Seremos obrigados a nos rever de vez em quando.”
“Não quero falatórios, Príncipe Daemon. Quando nos encontrarmos novamente, eu continuarei a ser civilizada e cortês. Afinal, eu sou a Coroa.”
Aquela frieza o tirava do sério. Suspirou impaciente com a teimosia da sobrinha.
“Você não me deu a menor chance de explicar os meus motivos.”
“É desnecessário. Só quero devolver isto.”- ela tirou um objeto do bolso do casaco. Era o colar de rubis e aço valiriano. Sem saber a razão, ele sentiu o peito queimar de desconforto.
“Foi um presente. Não o quero de volta. Você deve usá-lo.”
“É impossível, eu não posso usá-lo.”
Ela ficou com a mão estendida, o colar agasalhado em seus dedos. Ele não o pegou. Ela balançou a cabeça e tornou a enfiá-lo no bolso. Havia gente por ali, ela não queria cenas.
“Então, nunca mais eu poderei me aproximar de você?”
Rhaenyra Targaryen deu o primeiro sorriso autêntico naquelas duas luas.
“Eu não sei o que o futuro nos reserva. Eu realmente não saberia dizer.”
Ela caminhou de volta ao navio atracado sem olhar para trás.

Abrazyrys Sun 06 Apr 2025 12:58AM UTC
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