Work Text:
Ouviu os passos leves, e se virou, vendo a figura loira subindo os degraus.
Há dias, via Kyo andando de um lado ao outro, com um enorme curativo no pescoço.
Queria perguntar se a ferida ainda estava muito aberta e se precisava de algum cuidado médico mais específico, Kaoru temia que o tivesse ferido seriamente, mas sabia como o mais baixo era… Kyo evitaria dizer qualquer coisa ou daria uma desculpa para se manter longe de hospitais.
Fazia exatamente uma semana que haviam decidido aquele passo. Haviam decidido para se entenderem melhor, e mesmo que não usassem termos românticos e classificassem aquilo como um namoro ou uma amizade colorida, mesmo que Kyo parecesse distante algumas vezes, entendia que era correspondido, o amor era recíproco, mas havia um turbilhão de sentimentos que o mais baixo escondia, e Kaoru precisava saber melhor, precisava protegê-lo, ou tentar...
Se deitou no sofá.
Talvez fosse só impressão ou o incômodo de estarem em um airbnb durante toda essa temporada de shows, que estava deixando Kyo pior do que nos últimos anos.
Sentiu uma leve onda de calma por alguns segundos, e agradeceu internamente que Kyo havia se acalmado de alguma forma. Talvez se deitado, ou acendido um cigarro observando a paisagem monótona da cidade que estavam.
Kyo muitas vezes ficava contemplativo, em um profundo silêncio, como se assim se desligasse do mundo exterior. Kaoru tinha uma curiosidade e preocupação com essa tendência, mas não podia interferir.
[...]
Se sentou entre a parede e a cama. Aquela sensação de que estava à beira de um ataque de pânico.
Odiava estar ali, odiava tudo, queria voltar para casa, se esconder do mundo, mas tudo estava além da sua vontade, contratos caros não podiam ser quebrados. E naquele lugar, seu único ponto de calmaria era Kaoru. O mais velho havia se tornado seu porto seguro, e quando se propôs a marcá-lo, aceitou prontamente.
O que havia entre eles nunca foi nomeado, apenas acontecia. Encontros casuais em meio a ciclos de cio, ou apenas quando Kyo precisava se acalmar das crescentes crises de ansiedade.
Puxou o curativo, a marca das presas estava ali, com a ferida aberta, e tocou com as pontas dos dedos, cutucando com as unhas, fazendo sangrar novamente.
Fechou os olhos. Relembrando o momento em que as presas de Kaoru tocaram sua pele, o sangue escorrendo e todo aquele misto de sentimentos que vinham de si e do alfa. E aquilo funcionava tão bem, afastava sua ansiedade, relaxava seu corpo.
As unhas abriam mais a ferida, estava acostumado [e por isso as deixava grandes e afiadas, já que repetia o mesmo com os outros ferimentos em seu corpo durante as apresentações da banda.]
Aquela sensação inebriante do sangue e da dor em si, como se não houvesse nada mais além dele e suas reações àquilo.
Se distraiu, não percebendo a porta se abrindo e Kaoru surgindo e se assombrando com sua imagem.
O alfa levou alguns segundos para vocalizar seu espanto e preocupação.
- Hiro… - sussurrou, e os olhos castanhos do menor se viraram em sua direção, e ele paralisou com as unhas em cima da ferida sangrenta.
Kyo se manteve em silêncio, ainda da mesma forma, Kaoru se aproximou, logo o abraçando e colocando a mão sobre a dele, pressionando levemente para que deixasse de sangrar.
Não disseram nada, apenas permaneceram ali, quietos, sentindo as emoções um do outro, Kaoru se ajeitou para que o abraço ficasse mais confortável, e Kyo se encolheu, deixando o rosto contra o peito do mais velho, ouvindo seus batimentos.
- Não precisa fazer isso… Você sabe… - sussurrou o alfa.
Não teve respostas, o que era comum, mas continuou.
- Eu não posso dizer que entendo o que sente com isso, mas se precisa se acalmar, você precisa me procurar… não gosto que se machuque, não quero que se machuque mais. Eu estou aqui para te proteger, lembra?
Kyo não o respondeu mais uma vez, mas se moveu erguendo o rosto e o encarando. Os seus olhos gentis sempre neblinados por lágrimas. O cabelo descolorido grudava em seu rosto e cuidadosamente Kaoru deslizou os dedos para soltar os fios.
- Eu me sinto um lixo. - sussurrou. - Todos os dias sem exceção. Só… só esqueço quando sinto isso… quando eu revivo esse momento, por que você fez que eu me sentisse importante.
- Você não precisa reviver se ferindo. Eu estou aqui… Não prometo resolver tudo, mas estou aqui.
Kyo não o respondeu. Apenas se encolheu ainda mais, mas antes esboçando um sorriso para ele.
Continuaram ali, ouvindo o som dos outros chegando na casa, o manager perguntando o paradeiro de ambos.
- Hiro, fique aqui um pouquinho, vou pegar curativos. - disse sentindo o menor se afastar e o encarar por alguns segundos, desviando o olhar ao vê-lo se levantar e sair rapidamente do quarto.
Sua mão voltou a ferida, dessa vez não cutucou, apenas deslizou os dedos no sangue já levemente coagulado. Respirou fundo, fechando os olhos, sentindo o cheiro de Kaoru ainda em si, pelo tempo abraçados.
Não demorou para que o mais velho voltasse, com os itens que fora buscar. Kaoru silenciosamente se sentou ao seu lado, pegando uma gaze e passando antisséptico, limpando bem o ferimento antes de pegar outra gaze e cuidadosamente fazendo um novo curativo.
Kyo o observou atentamente, sorrindo de leve ao vê-lo terminar, e beijar sua bochecha levemente.
Talvez devesse deixar se curar.
Kaoru poderia ser sua cura.
